quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Junção de freguesias: Uns filhos, outros enteados...

Não faço de todo parte daqueles que vociferam contra a Troika. Vejo a realidade como ela é: Neste momento o país não pode assumir os seus compromissos sem o dinheiro que chega do FMI. Este facto pode criar uma situação de alguma subserviência do Estado perante o BCE, a Comunidade Europeia e o já referido FMI. A questão da reorganização administrativa do território foi imposta pela Troika no sentido de reduzir custos, ao que o Governo aceitou sem discutir. Não podemos mascarar a realidade: os custos com as freguesias no Orçamento de Estado pesam cerca de 0,1%. Serão estes 0,1% determinantes para o país? Ou, pelo contrário, estes cortes surtirão o efeito inverso como muitas outras medidas tomadas pelo Governo?

Aposto na segunda opção. Em primeiro lugar porque acredito que as freguesias representam um papel determinante no que toca à ligação entre a população e o poder concelhio, depois porque a figura do Presidente da Junta alarga-se para além das competências restritas deste. É a ele que (especialmente nas freguesias de pequena dimensão) recorrem as populações quando necessitam de ajuda para todo e qualquer problema com que se deparam. O Presidente da Junta é pois muito mais que o Presidente da Junta é, em muitos casos, a única pessoa a quem as populações podem recorrer.

Enquanto orgulhoso guetinense, não deixa de ser com enorme tristeza e mágoa que verei a minha freguesia ser anexada a Anta. Sim, digo anexada porque é esse o sentimento que prevalece não só no meu âmago mas também no de toda a população desta freguesia. Não quero com isto dizer que a freguesia de Anta se irá impor à de Guetim numa perspetiva de superioridade. Estou apenas a dizer que acontecerá aquilo que é natural: O mais forte impor-se, de forma inata, ao mais débil.

A lei da união das freguesias pressupõe que as mesmas conservem elementos como a bandeira, o brasão, etc. Curiosamente, o discurso é muito semelhante aquele que aconteceu em 1580, quando Filipe I assumiu o Reino Português. Na altura o então Rei afirmou, de forma solene que Portugal manteria a sua autonomia e a sua língua, indicando apenas portugueses para a administração do território nacional. O que aconteceu passados poucos anos? Portugal era uma mera província de Espanha. É certo que a história não serve para fazer futurologia, contudo dá-nos uma ideia clara daquilo que, muito possivelmente acontecerá com a freguesia de Guetim: O mais forte irá impor-se naturalmente ao mais débil e daqui a uns anos poucos se lembrarão da rica herança histórica e cultural da freguesia a que pertenço.

O mais fraco é também frequentemente o mais esquecido. E a freguesia de Guetim foi completamente esquecida pelo poder camarário. Até a defesa da manutenção das cinco freguesias foi bastante débil e tardia: Conforme Laurence Rees afirma: “um dos truques clássicos dos políticos é o adiamento”. A Câmara adiou consecutivamente uma posição sobre a defesa de todas as freguesias e, só quando viu que não tinha qualquer saída, é que votou favoravelmente a proposta pela manutenção.

Neste plano já não é apenas esquecimento, parece sim uma vontade tristemente sádica de querer apagar a freguesia de Guetim do mapa. A verdade é que talvez não fosse necessária a lei da união de freguesias para que Guetim desaparece-se já que o esquecimento desta câmara à freguesia tem sido óbvio. Ou talvez, mesmo sem obras que anunciadas pomposamente nunca foram feitas, mesmo com a câmara de costas voltadas para uma população esquecida e ostracizada os guetinenses são mais fortes, muito mais fortes que todas estas afrontas de que estão constantemente a ser alvo.

É tempo de refletir, não para mudar o que está feito mas para aprender com o passado para que no futuro a postura dos nossos governantes seja diferente.


André Rocha

Sem comentários:

Enviar um comentário