| Nuno Almeida no seu gabinete na Junta de Guetim. |
A junta de Guetim, edifício histórico, pequeno e sem condições foi o local escolhido para esta entrevista. No seu gabinete, Nuno Almeida igual a si próprio. Foi discorrendo cada uma das questões colocadas com a assertividade, coerência e lucidez que lhe são reconhecidas. Não parou muito para pensar, tampouco pediu para cortarmos o que quer que fosse. Numa entrevista, a publicar em três partes, falamos não só de Guetim mas também de Anta. Não só de Espinho mas também do país. Não só do Partido (Socialista) mas também do homem. Foram cerca de três horas de entrevista que, na verdade, passaram rápido demais. A cumprir o primeiro mandato à frente da União de Freguesias de Anta e Guetim, Nuno Almeida, 30 anos, casado e um apaixonado pela sua terra, em entrevista ao “Guetim Sempre”!
"Guetim foi visto como o alvo mais fácil a abater precisamente por ser olhado com desdém pelo Executivo Municipal."
"Guetim Sempre" (doravante GS) - Passado mais de um ano desde a reforma administrativa local acha que as freguesias de Anta e Guetim beneficiaram com a reforma que as uniu?
Nuno Almeida (doravante NA) - Não se pode dizer que tenham beneficiado, mas julgo, que pelo nosso esforço temos feito os possíveis para minimizar os prejuízos para as duas freguesias (Guetim e Anta). É importante ressalvar, no entanto, que tanto Guetim como Anta perderam alguém que esteja permanentemente em cada uma das freguesias porque, como sabem, é impossível ao Presidente da Junta dividir-se em dois. Do ponto de vista financeiro, a união não trouxe quaisquer benefícios, já que o orçamento foi reduzido. Infelizmente o que aconteceu foi retirar um executivo de junta, apenas e só isso.
GS - Durante a campanha para as autárquicas, foi notório o seu desagrado para com a atitude do executivo municipal na gestão do processo que acabaria por levar à união de freguesias. A situação poderia ser gerida de outra forma?
NA - Julgo que sim. A Câmara deveria ter uma atitude menos subserviente para com o Governo e defender as cinco freguesias de forma clara e inequívoca. A Câmara Municipal tomou a união de freguesias como uma inevitabilidade e riscaram literalmente o mais pequeno, ficando com o problema resolvido.
GS - Encontra pontos positivos na reforma da administração local?
NA - Não encontro qualquer ponto positivo. A Troika serviu para justificar muita coisa neste país. Esta Reforma Administrativa não foi certamente vontade da Troika, tudo isto faz parte de um plano que era para ser implementado no Governo de Durão Barroso. Pois bem, a vinda da Troika foi o pretexto ideal para se avançar com esta Reforma. Estive reunido com o presidente da ANAFRE e a própria direção desta associação afirmou que não tinha sido uma proposta da Troika a redução de freguesias. As Juntas representam 0,01% no Orçamento de Estado e a redução de 1000 freguesias pouco contribuirá para a redução da dívida. Os prejuízos causados às pessoas são bastante superiores às poupanças.
GS - Apesar de tudo, Guetim não pode parar! Quais são as maiores potencialidades que, na sua opinião, a freguesia possui?
NA - Guetim, sendo uma freguesia pequena, deve centrar as suas mais-valias nas pessoas e vejo um potencial enorme nesse campo. Não é uma junta de freguesia que faz a freguesia. As juntas são apenas órgãos autárquicos que têm o dever de gestão, contudo as pessoas são o cerne do desenvolvimento de qualquer território. Pelas pessoas que por cá passaram e pelas que cá vivem, julgo que estas gentes poderão dar mais de si no sentido de continuar a manter Guetim bem vivo. Para além do capital humano, Guetim tem uma área florestal que deve ser potencializada para fins turísticos e que me parece ter também um potencial enorme.
GS - Certamente saberá que muitos dos terrenos da zona florestal a que se refere são privados. Acredita que será possível sensibilizar os proprietários de forma a conservarem as terras limpas e, quiçá, cederem temporariamente à Junta para que esta possa desenvolver atividades?
NA - Historicamente, as pessoas são muito ligadas à terra, sempre existiram lutas por um palmo de terra. No entanto, estou convencido que se apresentarmos um projeto ambicioso com o qual os proprietários se sintam identificados essa possibilidade poderá existir. A Junta apresentou uma reivindicação à Câmara Municipal no sentido de assumir a competência para poder limpar os terrenos privados. Temos capacidade para tal e julgo que é uma mais-valia para o território, já que podemos acautelar situações como por exemplo, o surgimento de focos de incêndio.
GS - Os guetinenses sempre se sentiram esquecidos e marginalizados pelo poder central. Partilha desse sentimento?
NA - Se olharmos para o que foi feito no âmbito local aquando da discussão da Reforma Administrativa só posso concordar. Guetim foi visto como o alvo mais fácil a abater precisamente por ser olhado com desdém pelo Executivo Municipal.
GS - Acredita que o distanciamento de Espinho, o seu reduzido peso eleitoral e a ruralidade da freguesia poderão justificar o facto de Guetim ser considerado o parente pobre do concelho?
NA - Nada o deveria justificar. A freguesia de Guetim apesar de estar numa extremidade do concelho deveria ser vista como uma das portas de entrada para Espinho, logo deveria ser preservada e respeitada.
"A Câmara de Espinho tem um conceito ideológico contra as juntas de freguesia. Acha que estas não deviam existir" (...)
GS - Da sua experiência à frente destas duas freguesias quais são, na sua opinião, as principais diferenças e semelhanças entre Guetim e Anta?
NA - Ambas têm uma simbiose na área da ruralidade. É certo que Anta tem uma área urbana, contudo continua a ser uma freguesia profundamente rural. As tradições agrícolas estão bem patentes em ambas as freguesias. O culto do religioso é também uma semelhança que encontro entre as duas freguesias. Do ponto de vista das diferenças, existem formas de exigir e de ver as prioridades diferentes, não posso esconder que existem rivalidades. A principal característica de Guetim é um bairrismo exacerbado, talvez pela sua condição de freguesia mais pequena territorial e populacionalmente falando.
GS - Do seu contacto com a população de Guetim quais são os principais sentimentos e ambições que identifica nas nossas gentes?
NA - Sinto que as pessoas ainda não conseguiram digerir a questão da união. Há um estigma relativamente a Anta, como se a freguesia de Anta fosse a culpada de ter agregado Guetim. Eu não tenho culpa nem os antenses. Tentamos manter o mesmo tipo de serviços e intervenção para ambas as freguesias. Estamos aos poucos a encarar esta nova realidade e a tentar, dentro do possível, normalizar a vida de ambas as freguesias. A verdade é que por vezes somos “forçados” a falhar porque não temos condições para mais. Os problemas estão identificados, sabemos aquilo que as pessoas precisam mas também tenho a noção que por muito que possamos fazer será difícil apagar as marcas desta união forçada.
GS - Como avalia o papel do executivo camarário no que à relação deste com a freguesia de Guetim diz respeito?
NA - Se o meu antecessor já sentia alguma frieza e distanciamento por parte da Câmara Municipal, eu posso dizer que sinto exatamente o mesmo. Não consigo compreender este tipo de atitude por parte do Executivo Camarário. É verdade que fomos eleitos por partidos diferentes mas, infelizmente, há pessoas que transformam a política num jogo. Não me dou bem com pessoas que encaram a política como uma disputa para ganhar uma taça. Em Espinho sente-se um comportamento hostil para quem não pensa igual ao Executivo Camarário. Não estou cá para defender partidos nem para tirar dividendos pessoais. A minha prioridade são as pessoas e é para elas que trabalho todos os dias. Estou cá para defender os interesses dos antenses e guetinenses e é isso que continuarei a fazer. Existe uma verdadeira discriminação da Câmara para com Anta e Guetim. É notório.
GS - Ao fim de muitos avanços e recuos, o acordo de execução entre a Câmara Municipal e a Junta de Anta e Guetim foi finalmente assinado. A que se deveu a demora no processo?
NA - Foi um processo muito complicado. Quer as juntas quer a Câmara Municipal tinham entendimentos diferentes acerca da lei. Na altura que esta foi publicada poucos se preocuparam com a mesma. A lei cria um novo paradigma de competências quer para as câmaras quer para as juntas, dotando as últimas de mais competências. A Câmara de Espinho tem um conceito ideológico contra as juntas de freguesia. Acha que estas não deviam existir e, por isso mesmo, julgou estar acima da lei e ignorou-a pura e simplesmente! Havia um prazo de 130 dias após a eleição para fazerem os acordos e não o fizeram porque acharam que a lei não servia para nada. Foram, contudo, obrigados a fazer e tentaram montar uma estratégia para dividir os presidentes de junta para que cada um pudesse negociar individualmente. A Junta de Anta e Guetim negociou, contudo há uma coisa que eu não faço: assinar coisas em branco! Partimos para um processo de negociação, foi aceite uma proposta de valores entre mim e a Câmara e apertámos a mão. Posteriormente, a Câmara tentou passar uma rasteira a todas as juntas e aquilo que foi negociado no gabinete não foi aquilo que apareceu escrito. Perante a minha recusa de assinar o acordo, o executivo preferiu fazer-me uma afronta e mostrar o seu poder na Assembleia Municipal, não querendo ouvir nem recuar. Mantivemos a nossa posição e a Câmara acabou por nos dar razão e alteraram o documento. Não é um documento perfeito mas, dentro do quadro em questão, foi o melhor que conseguimos.
GS - A verba de 69.009,00€ vai de acordo ao almejado pelo executivo da Junta de Anta e Guetim?
NA - Não é suficiente para fazer a gestão da freguesia. Atendendo ao número elevado de vias rodoviárias que possuímos e à sua degradação, esta verba não vai ao encontro das necessidades das populações de Anta e Guetim. Também não conseguiremos dar uma resposta tão pronta quanto o planeado no campo social. A juntar a tudo isto, até hoje, ainda não recebemos a verba acordada.
"Posso anunciar em primeira mão, que teremos de novo os Correios em Anta. Foi proposto que algumas das valências dos correios de Anta pudessem ser feitas também em Guetim"
GS - As obras no cemitério de Guetim eram uma necessidade. Ficou satisfeito com o resultado?
NA - Naturalmente. Espero que as obras na canalização tenham resolvido os problemas existentes. Para além disso, resolvemos um problema com o motor que estava avariado e pintamos os muros do cemitério de forma a tornar o espaço mais aprazível. Introduzimos ainda novos baldes e vassouras para que possam ser utilizados por todos.
GS - Uma das queixas dos guetinenses prende-se com o mau estado das vias rodoviárias, nomeadamente a deterioração permanente da principal via de ligação com Espinho, a Rua dos Combatentes. Existe alguma vontade dos executivos de procederem à sua repavimentação?
NA - Já alertámos a Câmara para essa situação. No início do meu mandato, estive na Câmara para discutir o Orçamento de 2014. Foi-me dito que as juntas não precisavam de se preocupar com o estado das vias rodoviárias, uma vez que iria ser criada uma equipa de intervenção rápida com o intuito de repavimentar e arranjar as ruas. Até hoje, a tal equipa de intervenção rápida não foi criada. O que tenho feito é no sentido de comunicar à Câmara as ruas que necessitam de intervenção. Colocámos no Orçamento a Rua dos Combatentes como uma prioridade, vamos ver o que poderá ser feito!
GS - A pergunta inevitável…farmácia e correios em Guetim. Será possível?
NA - Tudo é possível. Ao contrário do que muitos dizem, a Junta de Anta e Guetim faz coisas e, posso anunciar em primeira mão, que teremos de novo os Correios em Anta. Foi proposto que algumas das valências dos correios de Anta pudessem ser feitas também em Guetim. Devido à concorrência dos Correios em Grijó, torna-se difícil a criação de um posto autónomo em Guetim. Já no que diz respeito à farmácia, apesar de não depender exclusivamente da junta, estamos a trabalhar no sentido de, eventualmente, haver possibilidade de a mesma ser aberta cá. Infelizmente hoje em dia observamos o fenómeno de fecho de algumas farmácias, no entanto é um objetivo pelo qual a junta continuará a trabalhar e existem boas perspetivas nesse sentido.
GS - Que projetos tem a Junta para Guetim? O que importa requalificar (ex. Parque da Picadela) e ser feito de raiz?
NA - Não desistimos do projeto da construção do projeto do Centro Cívico e Sede da Junta de Freguesia. Julgamos que poderá ser uma mais-valia para a população mais idosa, pois não existe um espaço de convívio para a população sénior na freguesia. Quanto ao Parque da Picadela, há outro projeto que a Junta tem em mente que é um Eco Hotel ou um parque de lazer. Apesar dos terrenos do Parque da Picadela pertencerem à Câmara e não à Junta, não desistimos da nossa intenção de requalificar essa área.
GS - O bem-estar das populações deve ser uma das prioridades do poder local. Assim, dado que as restantes freguesias possuem infraestruturas para as populações mais jovens e idosas, será possível avançar com um centro escolar e um centro de dia?
NA - Como referi anteriormente, julgo que o Centro de Dia ou Centro Cívico farão todo o sentido. Quanto ao Centro Escolar, não podemos esquecer que os mais novos são o futuro do país e, como tal, devemos fornecer às crianças as melhores condições de aprendizagem possíveis. Guetim tem neste momento o melhor índice de aproveitamento e de satisfação no que toca às escolas. Apesar desta realidade, julgo que se todas as freguesias foram contempladas com um equipamento moderno para as crianças, naturalmente que Guetim e as suas crianças deveriam ter também direito a um equipamento similar. Não vejo a razão para Guetim ser mais uma vez discriminado, especialmente quando fazia parte da Carta Educativa um Centro Escolar na freguesia!
"Estranho o facto de um guetinense eleito pelo PSD na Assembleia de Freguesia, não ter votado favoravelmente a proposta!" (para voltar a dar autonomia a Guetim)
GS – A prática desportiva tem sido uma das bandeiras do executivo municipal. No próximo ano completam-se 20 anos do início da construção do Complexo Desportivo de Guetim, obra que como todos sabemos, está inacabada e muito degradada. Acha que será possível finalizar o Complexo com as valências dos restantes recintos desportivos do concelho, nomeadamente relvado, balneários e luz artificial?
NA - Julgo que é possível desde que exista vontade! Há um problema jurídico com o campo mas que poderá ser facilmente ultrapassado. Já fizemos contactos com os arrendatários para podermos contornar o problema e chegámos a um entendimento para tomar posse do campo. O melhoramento do campo é uma pretensão nossa, contudo não está ao nosso alcance apesar da Junta ter vindo a fazer o que pode nesse sentido e estar inteiramente disponível para colaborar. O campo relvado seria uma mais-valia não só para Guetim mas também para a própria freguesia de Anta, que poderia também fazer uso do espaço dando, claro, prioridade aos clubes de Guetim na utilização e gestão do complexo.
GS - Já foi aprovada uma recomendação na Assembleia Municipal no sentido de voltar a dar autonomia a Guetim. Está disponível para continuar a lutar por esse objetivo?
NA - Naturalmente que sim. Volto a dizer que esta reforma não traz qualquer mais-valia. Estarei na linha da frente na defesa da reformulação da Lei da Administração Local.
GS - Que comentário tem a fazer ao facto da mesma proposta ter sido aprovada por unanimidade na Assembleia Municipal e ter sido votada favoravelmente apenas pelo PS e pela CDU na Assembleia de Freguesia?
NA - Julgo que diz muito do pensamento que os partidos que não votaram favoravelmente a proposta têm sobre a freguesia de Guetim. Ou é mais uma atitude de subserviência ao Governo e ao partido, ou então acreditam realmente que Guetim não deve existir como freguesia autónoma. Estranho inclusive o facto de um guetinense eleito pelo PSD na Assembleia de Freguesia, não ter votado favoravelmente a proposta!
Parte 2/3 a ser publicada dia 7/12/2014. Tema: O concelho.
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