Parte 2/3 - O concelho. Veja a parte 1/3 AQUI
| O Presidente Nuno Almeida |
"O essencial são as pessoas!"
"Guetim Sempre"(doravante GS) - Que comentário tece à realidade atual do concelho?
Nuno Almeida (doravante NA) - Não sou historiador, não conheço o passado de Espinho na profundidade mas, em contrapartida, tenho a minha opinião no que à realidade recente diz respeito. O que eu vejo é um concelho a definhar em várias áreas e a cada dia que passa. Espinho é uma cidade de veraneio e turismo em que as pessoas se têm afastado cada vez mais, deslocando-se para os concelhos limítrofes. Estamos a perder atividade e comércio, sinceramente, não vejo vontade de discutir os problemas da cidade, ao invés apenas assisto a iniciativas superficiais que passam uma imagem daquilo que Espinho efetivamente não é!
GS - O executivo liderado pelo PSD está já a cumprir o segundo mandato à frente da autarquia. Como avalia o trabalho desenvolvido enquanto cidadão espinhense?
NA - Existiu uma tentativa de modernização de alguns serviços da administração, possibilitando um salto qualitativo na organização administrativa do concelho. Tudo o resto são iniciativas fugazes, julgo que não existe a definição de um projeto para Espinho. O PSD não estava preparado para assumir o cargo e, por conseguinte, não existia um projeto para Espinho por parte deste partido. A liderança é bastante centrada na comunicação e na tentativa de criar alguns acontecimentos que possam de alguma forma “encher o olho” mas que, na realidade, pouco ou nada acrescentam à cidade.
GS - Como já foi referido anteriormente, Guetim foi em tempos o “parente pobre” do concelho. Teme que com as últimas medidas tomadas pelo executivo que esse ónus se mantenha mas, desta vez, na maior freguesia do concelho (Anta-Guetim)?
NA - Corremos o risco que isso possa acontecer. Parece que alguns se esquecem que estamos a trabalhar para as pessoas e não para as pessoas dos partidos. Estamos aqui para desenvolver o nosso território e, temo que, pela personalidade ou por questões ideológicas de quem está a dirigir os destinos da câmara, que essa disputa e essa visão “desportista" do confronto político se esqueça do essencial. O essencial são as pessoas!
GS - O desemprego, nomeadamente o desemprego jovem, é um autêntico flagelo que, infelizmente, percorre todo o país. No caso de Espinho quais são, na sua opinião, as medidas que o executivo deveria tomar para dinamizar e promover o emprego?
NA - Pelo menos do ponto de vista direto, uma câmara pouco pode fazer para promover o emprego, contudo, indiretamente, é possível melhorar alguns aspetos da cidade para atrair desenvolvimento, logo, oportunidades de emprego. A cidade deveria ser reorganizada de forma a potencializar o comércio e a criação de indústria, olho por exemplo para a nossa zona industrial que, julgo, deveria ser repensada.
"Existem ideias fugazes que são criadas apenas num pequeno momento e que
pouco acrescentam. O Triatlo e as corridas de Karting são dois exemplos
de iniciativas fugazes que nada têm a ver com a identidade de Espinho."
GS – Uma vez que Espinho pertence à Área Metropolitana do Porto, possui dos melhores acessos rodoviários da Europa, bem como o caminho-de-ferro e o mar, quais as razões para Espinho não ter, de momento, uma maior projeção a nível nacional?
NA - Este é um problema que ao longo dos tempos se foi agudizando. Espinho deixou de ser atrativo. Espinho fez a sua remodelação há mais de 20 anos atrás, na época voltou a dar um novo ânimo à cidade. Outros conceitos à nossa volta iniciaram essa remodelação mais tardiamente, há pouco mais de uma dezena de anos. Esses concelhos vizinhos têm infraestruturas mais recentes, logo, mais apelativas. Creio que essa é a principal razão para Espinho ter vindo a perder a sua projeção. Existiu, com o rebaixamento da linha férrea, uma tentativa de voltar a dar uma nova vida a Espinho, contudo a zona da Alameda 8 não tem sido devidamente aproveitada.
GS - A indústria é um forte pilar na criação de emprego e, infelizmente, a indústria em Espinho morreu. Quais deveriam ser as principais medidas a tomar para o desenvolvimento industrial no concelho?
GS - O concelho de Espinho tem um potencial turístico enorme. Como avalia o papel das entidades locais no que toca à promoção turística da cidade?
NA - A Câmara tem indiscutivelmente um papel importante nessa área. Temos que nos conhecer, saber aquilo em que somos bons e aquilo que temos de positivo para oferecer; depois sim, avançarmos para uma promoção turística assente nas mais-valias da cidade. Existem ideias fugazes que são criadas apenas num pequeno momento e que pouco acrescentam. O Triatlo e as corridas de Karting são dois exemplos de iniciativas fugazes que nada têm a ver com a identidade de Espinho. A nossa cidade é conhecida pelo mar, no desporto pelo voleibol, logo deveríamos explorar mais a nossa génese. As últimas iniciativas de potencialização do surf vão ao encontro desta ideia de aliar o desporto e o turismo à identidade.
GS – Desde sempre, falar de turismo em Espinho é sinónimo de falar de turismo balnear. Não será minimalista olhar o turismo na cidade de forma sazonal? Não seria pertinente explorar formas alternativas de turismo?
NA - Definitivamente. Sofremos do fenómeno das nortadas e nem sempre é agradável estar na praia. É lógico que seria pertinente pensar em alternativas. Temos uma área florestal agradável que poderia ser potencializada para atividades lúdicas e desportivas. O Castro de Ovil, o Parque da Cidade (que já deveria ter avançado) são exemplos de dois locais que deveriam ser uma aposta forte deste executivo.
GS – No que respeita à cultura, Espinho tem uma história rica. Seria possível o concelho potenciar uma agenda cultural mais ampla utilizando as infraestruturas e os recursos humanos que possui?
NA - Olho para Espinho como uma cidade que tem uma massa crítica enorme e com vontade de participar em eventos culturais. Temos tantas pessoas com valor nessas áreas e, ironicamente, nenhum destes equipamentos que possuímos (FACE, Academia de Música, Auditório da Junta de Espinho, Centro Multimeios…) está diretamente vocacionado para a arte e para a cultura na sua total amplitude. Faz falta em Espinho uma Casa da Cultura que seja o motor para o desenvolvimento cultural da cidade. Falta espaço e palco para os artistas de Espinho demonstrarem o seu valor.
GS - Acredita que freguesias como Anta e Guetim poderiam fornecer roteiros turísticos e culturais interessantes caso existisse vontade para tal?
NA - Estamos a tentar trabalhar nesse aspeto. Já fizemos uma abordagem junto de algumas associações culturais da freguesia e temos interesse em dinamizar outro tipo de atividades, contudo, as mesmas dependem da vontade das pessoas. A junta, naturalmente, prestará todo o apoio possível, porém não nos podemos substituir à sociedade civil. Estamos cá para apoiar projetos interessantes e que acrescentem valor.
GS - Partilha da opinião que infraestruturas de alto investimento como o FACE, a Nave Desportiva, o Complexo de Ténis ou o Centro Multimeios estão subaproveitados?
NA - Podemos adotar uma visão minimalista e dizer que são tudo elefantes brancos, porém não penso assim. Não acredito que esses equipamentos foram construídos sem um conceito. Todos têm potencialidades e todos são utilizados diariamente apesar de estarem imensamente subaproveitados. Primeiro de tudo, é necessário que exista vontade e uma equipa de profissionais que coordenem estes espaços de forma a revitalizar os mesmos. Julgo que, por exemplo, o FACE deveria estar inscrito na Rede Nacional de Museus de forma a atrair público e poder ter exposições variadas durante todo o ano. O caso da Nave Desportiva poderá ser mais difícil de preencher, no entanto, se dermos aquele palco aos nossos clubes e instituições para o poderem usar, creio que estas lhe dariam um aproveitamento diferente podendo proporcionar espetáculos e atividades que injetassem uma nova vitalidade no equipamento.
GS - O associativismo em Espinho foi sempre muito dinâmico em proporção à reduzida dimensão do concelho. Acha que a Câmara tem feito um bom trabalho no que toca ao apoio das coletividades?
NA - Espinho tem imensas coletividades, essencialmente desportivas. Creio que a câmara deveria repensar o seu apoio às coletividades. Julgo que devia apoiar mais instituições de carácter cultural ao invés de outro tipo de associações. Estou certo que a cultura tem sido descurada em detrimento do desporto. Não quero com isto dizer que o desporto não deva receber apoios, o que quero transmitir é que existe uma discrepância acentuada entre os fundos atribuídos aos clubes de Futebol Popular em comparação com algumas associações culturais. A realidade é que o Futebol Popular foi criado na base do conceito de “popular" e hoje, infelizmente, vemos uma quase profissionalização dos campeonatos que, creio, desvirtua um pouco a finalidade da competição. O dinheiro gasto com o Futebol Popular é demasiado!
"Um tapete de betão e um palco com o Tony Carreira a cantar (apesar de não ter nada contra o referido artista) no Verão não é suficiente para potencializar Espinho."
GS - O desenvolvimento turístico e industrial assim como a criação de emprego são pilares importantíssimos para o desenvolvimento do concelho. Todavia, o bem-estar, nomeadamente daqueles que já deram o seu contributo à sociedade com o seu trabalho árduo não deve ser descurado. Qual a sua opinião relativamente às ofertas de lazer e enriquecimento cultural para os idosos em Espinho?
NA - Pela importância que foi dada aos idosos no anterior executivo, o atual sempre olhou com alguma discriminação para todas as iniciativas que visem fornecer algum tipo de ocupação a todos aqueles que, com o seu esforço, contribuíram durante uma vida para o desenvolvimento da sociedade. Apesar disto, caiu na “tentação" de fazer umas viagens para aqueles que as podiam pagar. O programa de apoio aos idosos deveria insistir em mais que umas festas e bailaricos. O foco deveria primar pela diversificação da oferta. Temos, por exemplo, uma Piscina Municipal de água salgada que poderia ser utilizada para promover aulas de ginástica para os idosos no sentido de fornecer a estes uma melhor qualidade de vida. O envelhecimento ativo não se faz somente com iniciativas fugazes, a câmara deveria empenhar-se por ter uma oferta diária nas mais diversas áreas para todos aqueles que tiveram uma vida dura e poderem, na reta final do seu percurso, tirar, finalmente, algum prazer.
GS - Enquanto cidadão sente-se feliz com o seu concelho? Considera que Espinho reúne todas as condições para que os seus cidadãos desfrutem de uma boa qualidade de vida?
NA - Espinho sempre teve bons índices de qualidade de vida. Temos uma cidade concentrada e imensos serviços de proximidade com infraestruturas necessárias. Creio que é necessário haver mais gosto pela cidade e pela condição de espinhense. Julgo que o executivo deve ser ativo no sentido de criar dinâmicas para que Espinho reconquiste a relevância que teve noutros tempos. Temos mar, praia, terra, montanha, malha urbana, malha rural…ou seja, tudo o que é preciso para termos a adrenalina da vida na cidade e o descanso do campo.
GS - Sente um futuro risonho para o concelho? Acredita que Espinho nos próximos anos irá evoluir no rumo certo e quiçá voltar a ser a “Rainha da Costa Verde”?
NA - Depende não só de aspetos externos mas também da vontade de colocar de lado algumas ambições pessoais e políticas de alguns dirigentes da nossa cidade. Se colocarmos o nosso saber e força ao serviço da cidade e do concelho, certamente haverá potencialidade para que Espinho volte a ter uma maior atividade. O espaço da Avenida 8 bem aproveitado é fundamental. Se o projeto inicial tivesse avançado e não fizessem um remendo, talvez hoje ainda estivéssemos em obras mas seguramente não teríamos hipotecado o futuro de Espinho nos próximos anos. Um tapete de betão e um palco com o Tony Carreira a cantar (apesar de não ter nada contra o referido artista) no Verão não é suficiente para potencializar Espinho. Falta pensar a cidade de uma ponta à outra e não fazermos medidas de intervenção rápida como o caso da Avenida 8.
Parte 3/3 a ser publicada dia 15/12/2014. Temas: O homem, o país e o partido.
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