| Nuno Almeida em entrevista |
Apresentamos a última parte da entrevista do Presidente da União de Freguesias de Anta e Guetim. Nuno Almeida fala não só sobre a sua pessoa mas também sobre o país e o seu partido (PS) numa conversa longa, sobre grandes temas. Na primeira parte da entrevista, a 1 de Dezembro, o tema foi a freguesia de Guetim, já na conversa de dia 8 de Dezembro abordamos o concelho. Poderá encontrar as mesmas nos links abaixo.
Parte I disponível AQUI
Parte II disponível AQUI
"Nunca manifestei a minha vontade publicamente nem me impus, a minha candidatura surgiu da vontade do PS de Anta."
"Guetim Sempre"(Doravante GS) - Concordará que, para muitos guetinenses, é ainda um “perfeito desconhecido”. Quem é o Nuno Almeida?
Nuno Almeida (Doravante NA) - Sou um jovem que estudei em Esmojães e fiz o restante percurso escolar fora de Espinho com muita pena minha. Sempre estive ligado ao associativismo em Espinho e em Anta, fiz parte do Rancho Folclórico do Grupo Cultural e Recreativo Nova Semente, pratiquei desporto na Académica de Espinho (hóquei em patins) e no Sporting de Espinho (voleibol), fui jogador de andebol em Oleiros tendo chegado à seleção de juvenis. Tenho um amor enorme à minha terra, possuo uma costela bairrista da qual me orgulho bastante.
GS - Quais foram as motivações que o levaram a aceitar o desafio de ser o candidato do Partido Socialista à freguesia de Anta-Guetim nas últimas autárquicas?
NA - Entrei para a política em 2005. Fui eleito, primeiro para a Assembleia de Freguesia como independente e, posteriormente, inscrevi-me no partido. Sempre senti gosto por poder estar na esfera da decisão, dar o meu contributo no sentido de melhorar a minha freguesia. Quem me acolheu foram Napoleão Guerra e José Mota que viram em mim capacidades. Foi graças a Napoleão Guerra que entrei para o Partido Socialista, sempre me identifiquei com a área socialista apesar de não vir de uma família deste espectro partidário. Tenho uma costela humanista que me fez facilmente associar aos valores e princípios da verdadeira social-democracia que nada têm a ver com o que o Partido Social Democrata defende hoje. Não nego que poderia ambicionar, depois de estar imbuído ativamente no executivo antense, uma candidatura, contudo nunca pensei que tal viesse a acontecer tão cedo. Nunca manifestei a minha vontade publicamente nem me impus, a minha candidatura surgiu da vontade do PS de Anta que considerou que eu seria a melhor pessoa para encarar este projeto.
GS - Qual a figura política nacional ou local que lhe serve de inspiração e porquê?
NA - Não sou uma pessoa de ídolos, contudo apreciei bastante a conduta de Jorge Sampaio especialmente enquanto Presidente da República, Napoleão Guerra a nível local foi a figura que mais me marcou, já que me acolheu na vida política ativa sendo ainda hoje exemplo para mim.
GS - Como é o dia-a-dia de um Presidente de Junta a tempo inteiro como é o seu caso?
NA - Não é fácil porque são duas freguesias. Se o Presidente da Junta está com as pessoas é porque está sempre a passear, se está fechado no gabinete é porque não quer saber das pessoas. Tento preservar sempre a dualidade do contacto com os habitantes de Anta e Guetim e, claro, com o trabalho no gabinete. Este primeiro ano, passei-o mais no gabinete para poder estudar e compreender todas as problemáticas que esta agregação de freguesias encerra. Pela manhã tento dar um passeio pelas duas freguesias, estando em contacto com as populações e, ao mesmo tempo, planeando o trabalho para aquele dia, já a tarde é passada no gabinete. Este primeiro ano tem sido centrado nas questões burocráticas.
GS - Muitos foram aqueles que durante a campanha o acusaram de ser muito novo e impreparado. Como comenta esta afirmação?
NA - A dificuldade que a oposição tinha em colocar-me defeitos é ilustrativa dessas críticas. Os restantes candidatos já me conheciam e sabiam que a minha conduta era, como sempre foi e será, impoluta. Até hoje, a minha juventude e a minha hipotética impreparação não têm sido um problema na gestão da autarquia.
GS - Sabemos que apesar da juventude o Nuno Almeida tem um currículo de cidadania bastante interessante. Pode recordar-nos as atividades que desenvolveu em prol da comunidade antes de abraçar este desafio?
NA - Desde pequeno que participo no Grupo Cultural e Recreativo Semente, tendo passado pela direção do grupo, estive no Grupo Desportivo Nova Semente, tendo sido diretor. Pertenço à Igreja, sou catequista e estou envolvido num grupo de teatro, também na paróquia de Anta.
"Não creio que a coligação PSD/CDS tenha feito as reformas necessárias no país."
GS - Certamente é um homem atento à política nacional. Como vê a prestação do atual Governo?
NA - Se olharmos a Troika como uma inevitabilidade, governar nestas condições é sempre difícil e, na verdade, era necessário fazer um esforço para equilibrar as finanças do país. É sempre complicado tomar medidas impopulares, no entanto vejo este governo a querer ir mais além. A Troika foi o pretexto para algumas reformas que não estavam no Programa de assistência e que afetaram de sobremaneira o país.
GS - Acredita que muitos dos sacrifícios impostos aos portugueses poderiam ser evitados? De que forma?
NA - A ideologia de direita deste governo pretendem retirar o Estado da economia, ideia com a qual não concordo. Se é verdade que este governo terminou com algumas regalias absurdas, não deixa de ser verdade que também colocou muitos portugueses no limiar da sobrevivência. Não creio que a coligação PSD/CDS tenha feito as reformas necessárias no país. Perdemos a oportunidade de colocar a nossa identidade e o nosso saber à frente de outro tipo de interesses, de cariz pessoal e partidário. Estamos um pouco presos à vontade da Alemanha, que tem imposto a sua força diplomática, não só sobre Portugal, mas por toda a Europa. A desvalorização da moeda poderá ser uma saída para toda esta crise, mas para isso é necessário bater o pé à Alemanha e demonstrar que nem tudo é mercado, que existem pessoas que sofrem com todas estas medidas.
NA - Enquanto português, e como tal, cidadão de um estado de direito democrático, como vê a situação de pilares da sociedade como a justiça, a saúde e a educação?
GS - Estes três pilares são essenciais para o desenvolvimento de qualquer país. A justiça está subordinada ao poder político, minando por completo a separação de poderes. É realmente triste que, hoje em dia, muitos sejam julgados na praça pública ao invés de o serem no tribunal, este tipo de comportamentos não podem ser aceites num Estado de direito. A partir do momento em que um Governo não aceita a decisão de um Tribunal Constitucional, pergunto-me onde para o Estado de direito! No que toca à saúde, apesar de termos um Sistema Nacional de Saúde bastante avançado e capaz, os cortes nesta área não vêm ajudar em nada a manutenção da qualidade do nosso SNS. A educação tem evoluído muito negativamente. Arriscamo-nos a regressar ao tempo do Estado Novo em que só vai para a escola quem é rico. O acesso à escola pública não devia sequer ser colocado em causa!
GS - Enquanto militante do Partido Socialista sente que o rumo do país estaria diferente caso o seu partido tomasse as rédeas do poder?
NA - As pessoas são seres humanos e todos nós temos ambições e desejos que nem sempre são concretizáveis quando nos deparamos com a realidade. Não há um partido com a solução mágica para resolvermos os problemas do país, contudo creio que possa existir outro tipo de sensibilidade na gestão dos problemas.
GS - Quais são as áreas prioritárias nas quais o Governo deveria investir mais esforço para melhorar o país?
NA - Era essencial que voltássemos a industrializar assim como imprimir uma aposta forte na agricultura. Se olharmos para o Alentejo, o maior olival em território nacional é explorado por espanhóis! O apoio da atividade agrícola poderá também ter outro efeito no sentido de repovoar o nosso interior que, como sabemos, está praticamente deserto.
GS - Que comentário tem a fazer à atuação do Presidente da República? Acha que Cavaco Silva demonstrou estar à altura do cargo que desempenha?
NA - Cavaco Silva optou por uma estratégia demasiado politizada e muito pouco imparcial. Terminou mal o seu mandato como Primeiro-Ministro e termina mal o seu mandato como Presidente da República. Creio que ficará marcado como o pior Presidente da República dos últimos tempos. Cavaco serviu como meio para o PSD chegar ao Governo. Ao contrário do que aconteceu durante o Governo de José Sócrates, no qual Cavaco interveio em demasia, quando o país foi alvo do resgate financeiro, a sua voz praticamente silenciou-se.
"Esta é uma boa altura para existir um entendimento na área da esquerda."
GS - Centremo-nos agora no partido. Pode dizer-nos qual o candidato que apoiou nas diretas à liderança do Partido Socialista?
NA - Desde a primeira hora que apoiei António Costa. Na criação da Agenda para a Década, em Aveiro, na qual estive presente, notei que existia uma dinâmica muito interessante em torno de António Costa que, felizmente se veio a confirmar.
GS - Acredita que António Costa poderá dar uma nova dinâmica ao Partido Socialista?
NA - Não tenho dúvidas. António José Seguro foi apanhado na rede da oposição ficando refém das suas próprias atitudes. Levou demasiado tempo a tentar demarcar-se do passado, sendo oposição ao próprio partido. Perdeu espaço no panorama nacional. A mobilização do partido ficou aquém, tenho certeza que com António Costa será totalmente diferente.
GS - Em caso de uma vitória sem maioria, é da opinião de uma aliança do Partido Socialista com outros partidos?
NA - Neste momento o país não precisa de mais eleições, por isso mesmo creio que, não havendo maioria do PS, a aliança será o caminho.
GS - Suponhamos que nas próximas eleições legislativas haja uma grande dispersão de votos. Na sua opinião, em caso de não atingir a maioria absoluta nas próximas legislativas, o Partido Socialista deve aliar-se à esquerda (Partido Comunista Português ou Bloco de Esquerda) ou à direita (Partido Social Democrata ou Centro Democrático Social) e porquê?
NA - Sempre existiram alianças entre partidos. Os partidos à esquerda do PS sempre tiveram uma atitude contestatária, fugindo das responsabilidades governativas. Esta é uma boa altura para existir um entendimento na área da esquerda. Uma estabilidade governativa é fundamental. Contestar é fácil, assumir responsabilidades é mais difícil!
GS – Acredita que o Partido Socialista continua a ser um partido de esquerda?
NA - Na sua ideologia sim, mas o partido é feito de pessoas e nem toda a gente pode identificar-se com os mesmos valores. Existem várias correntes dentro do PS, uma enorme pluralidade de opiniões. O PS é um partido responsável e por vezes é necessário adotar medidas que não se coadunam com o perfil ideológico do partido mas, num momento específico, são o que o país precisa.
"(O Guetim Sempre) É um projeto de bastante valor na preservação de uma cultura e
identidade guetinenses."
GS - O que é para si ser socialista?
NA - É defender o Estado Social no qual todos tenham as mesmas oportunidades com livre acesso à educação, justiça e saúde. Um Estado no qual as pessoas possam ter liberdade de expressão. A paz social parece-me fundamental para uma verdadeira comunhão entre todos.
GS - Que opinião tem sobre o projeto “Guetim Sempre”?
NA - É um projeto de bastante valor na preservação de uma cultura e identidade guetinenses, que vai dar a conhecer a muita gente a sua freguesia. Tem um potencial enorme na divulgação e preservação da cultura local, pelo que faz todo o sentido que exista um meio de comunicação em que os guetinenses e não guetinenses possam encontram referências e informação acerca de Guetim. É uma inovação e uma modernidade com muita originalidade.
GS - Por último, uma mensagem que queira deixar a todos os guetinenses, antenses e, claro, a todos os leitores do blogue “Guetim Sempre”?
NA - Podem acreditar na Junta de Freguesia como um apoio às necessidades das populações. Aos guetinenses e antenses peço que acreditem e sigam o projeto do blogue “Guetim Sempre” e que interiorizem que não é um órgão autárquico que faz a identidade da freguesia. Quem cria a identidade são as pessoas e este projeto vai nesse sentido. Espero que todos tenham orgulho em ser guetinenses e antenses e participem ativamente na vida das suas freguesias.
FIM
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