Nota: O objetivo deste artigo é discorrer somente acerca do retábulo e não da Capela em si.
Introdução
A arte conta-nos histórias. Uma vez lidas as pinturas, independentemente do seu valor material, transmitem-nos informações riquíssimas sobre a vivência quotidiana de uma determinada comunidade. O retábulo da Igreja Velha não é exceção. Apesar do seu péssimo estado e da sua pobreza material e técnica consegue dar-nos pistas não só sobre o culto religioso praticado mas também acerca da riqueza do encomendador e até mesmo da região.
O trabalho não está, e talvez nunca esteja, totalmente concluído. O retábulo tem certamente muito mais para nos contar, contudo sentimos que por esta altura podemos avançar com um estudo minimamente credível acerca da composição do mesmo. Prepare-se caro leitor, a pintura vai começar a falar!
Localização geográfica
O Retábulo objeto de estudo situa-se em Portugal, na fronteira do distrito de Aveiro com o distrito do Porto. O concelho é Espinho, a freguesia Guetim (Anta-Guetim após a Reforma Administrativa de 2011). A capela dista 2,17 km do Mosteiro de Grijó em linha reta e cerca de 2,30 km em trajeto rodoviário. Já da Igreja Paroquial de Guetim dista 1,15 km em linha reta, 1,35 km em caminho pedonal ficado a cerca de 2 km em trajeto rodoviário.
![]() |
| Vista Google Earth |
![]() |
| Vista Google Earth pormenorizada |
| A capela vista de Grijó |
| O interior da Capela da Igreja Velha |
Contexto
Após algumas leituras sobre o local tivemos conhecimento que existia um retábulo no interior da Capela da Igreja Velha em muito mau estado. Apesar da deterioração ainda não foi tarde para o estudar, contudo, amanhã certamente será, dado o seu acelerado estado de decomposição. Conseguimos aceder ao interior da Capela para fotografar a obra de forma a termos uma melhor perceção do conjunto e de alguns pormenores que só após horas de visualização saltaram à vista.
Encontramos a Capela exposta a imensa humidade no Inverno e à elevada temperatura no Verão, devido ao facto da construção ter várias aberturas por onde circula o ar e todo o tipo invasores naturais que deterioram o retábulo e o imóvel em si. O estado de degradação do mesmo é quase total estando a tinta descascada em cerca de 80% da área da pintura, o que dificultou imenso o trabalho de identificação das personagens.
As flores usadas para enfeitar a capela são geralmente colocadas mesmo em frente ao retábulo, contudo o recipiente está descaído para o lado esquerdo. Isto fez com que a parte central e direita do retábulo ficasse mais protegida que a esquerda, já que as flores serviram durante vários anos de protetor natural à conservação desta parte da peça.
O retábulo data de 1866 ou 1868, contudo acreditamos que o mesmo não foi encomendado para a Capela, tendo sido posteriormente colocado no local. Nada se sabe acerca de quem encomendou a peça, tampouco quem foi o seu autor. É uma pintura pobre, de um artista tecnicamente fraco e com pouco valor material. O desenho é algo infantilizado e com uma falta de noções artísticas claras, por isso mesmo estamos perante uma peça barata, de um encomendador pobre.
Podíamos apelar ao valor material da peça e para a necessidade da sua conservação mas não o vamos fazer, pois acreditamos que o seu valor monetário é reduzido. Não podemos contudo esquecer o seu valor identitário e histórico para a freguesia que a possui. Desse ponto de vista a recuperação (sendo possível) seria salutar.
Identificando o retábulo
1. Cristo crucificado;
2. Escadas, lança, martelo, cálice, chicote e lanças;
3. Imaculado Coração de Maria;
4. Maria Madalena?/São João?;
5. Não identificado;
6. Chamas, mãos;
7. Não identificado;
8. Inscrição.
Obras semelhantes
Escolhemos estas três mas, na verdade, existem inúmeras obras que se assemelham ao retábulo objeto de estudo. No fundo os temas da paixão são recorrentes e repetidamente reproduzidos por diversos artistas.
![]() | ||
| Obra 1 - Sagrado coração de Maria de Leopold Kupelwieser |
![]() |
| Crucificação por Simon Vounet |
![]() |
| Obra 3 - Crucificção por El Greco |
Obra 1 - Sagrado Coração de Maria por Leopold Kupelwieser
"(...) et tuam ipsius animam pertransiet gladius ut revelentur ex multis cordibus cogitationes (...)" Lucas, 2:35.
A devoção do Sagrado Coração de Maria é bastante antiga, tendo as suas origens na Idade Média, sendo veiculada através de teólogos como São Bernardino de Siena ou São Francisco de Sales. Curiosamente, a devoção manteve-se quase adormecida durante grande parte do período da época moderna até ressurgir em finais do século XVII, por terras gaulesas, através do presbítero francês João Eudes. O seu livro "Coeur Admirable" publicado em 1681 rapidamente alastra o culto por todo o sul da Europa tendo chegado a Portugal em inícios do século XVIII.
Na obra um podemos ver o coração resplandecente de Maria significando o eterno amor que a "mãe do céu" (segundo os católicos romanos) tem para dar a todas as almas. A luminosidade das chamas que o cercam significa também a presença viva de Maria entre os cristãos romanos, sendo exemplificativo do fogo do Espírito Santo. Há ainda uma coroa de espinhos que rodeia o coração representando aqueles que são indiferentes ao seu amor, ferindo o coração de Maria podendo ter a espada a mesma interpretação. O manto vermelho representa o fogo vivo do Espírito Santo e o véu azul o céu e a paz eterna. Note-se ainda o gesto da mão esquerda, convidando os Homens a juntarem-se ao seu culto. O fundo da pintura é dourado, resplandecente tendo por objetivo demonstrar o brilho e a grandiosidade da Virgem.
Obra 2 - Cristo Crucificado por Carl Bloch
"(...) dicunt omnes crucifigatur ait illis praeses quid enim mali fecit at illi magis clamabant dicentis crucifigatur (...)" Mateus, 27:23.
Esta representação é uma das mais recorrentes. Ao centro a cruz com Crisco crucificado estando na sua direita a mãe, Maria, e na esquerda o apóstolo João e Maria Madalena. Apesar de simplista no que à simbologia diz respeito será de notar o céu negro anunciando o tempo de trevas e personificando a dor de Deus perante os Homens. Para além dos pregos não encontramos outros símbolos da paixão de Cristo como escadas, martelos ou chicotes. A cruz romana e a disposição dos personagens são muito semelhantes à distribuição dos personagens no retábulo da Capela da Igreja Velha.
Obra 3 - Crucificação por El Greco
"(...) cum vidisset ergo lesus matrem et discipulum stantem quem diligebat dicit matri suae mulier ecce filius tuus" João, 19:26.
Mais uma vez note-se a cruz ao centro da imagem como é usual. A figura de Cristo, crucificado, é ladeada por dois anjos que amparam o sangue que cai. À semelhança do retábulo da Igreja Velha note-se a imagem de Maria do lado direto da cruz e João do lado esquerdo. Maria Madalena aparece de joelhos, assim como os anjos ampara o sangue que cai, uma imagem aliás muito recorrente nos artistas italianos como é o caso de Greco.
*Colaboração de David Aguiar mestre em Património Cultural pela Universidade do Minho
*Colaboração de David Aguiar mestre em Património Cultural pela Universidade do Minho
...Continua...








Sem comentários:
Enviar um comentário