sábado, 27 de dezembro de 2014

O fecho da Igreja de Guetim (1913 - 1918) parte 3/4

Os ecos da Imprensa 

Igreja Paroquial de Guetim


A Igreja de Guetim estava agora na posse da Cultual. A imprensa replicou os acontecimentos ocorridos em Guetim de forma veemente. Periódicos como “A Montanha”, “Jornal de Notícias” ou a “Ordem” (este último um jornal católico) mencionaram o caso ocorrido. “A Montanha” referia o seguinte:

“Na freguesia se Guetim, no vizinho concelho de Gaia, foi ontem inaugurada uma associação cultual. O Administrador, o nosso velho amigo e republicano, Dionisio dos Santos, assistiu á inauguração, dando posse á comissão que a constitui.

Segundo nos informaram, ao acto assistiram muitos correligionários daquela freguesia. Vê-se que a Lei da Separação está na alma e no sentir do povo. As próprias populações das aldeias aceitam e querem o seu cumprimento. As insídias e mentiras dos reaccionários não dão fruto que eles desejam, a que eles aspiram, na sua ânsia de atacar o regime.

O seu zelo excessivo desvenda-lhes os intuitos e o povo compreende a emboscada que lhe armam e reconhece de que lado estão a justiça e a lealdade e quais são os defensores dos seus direitos e da sua liberdade. O procedimento do velho republicano senhor Dionisio dos Santos Silva indo pessoalmente dar posse á Comissão, é digno de aplauso pelo bom exemplo que oferece, mostrando que as autoridades devem zelar o cumprimento da Lei da Separação e encorajar aqueles que defendem e cumprem aquele patriótico diploma.” (A Montanha, número 679, 31 de Maio de 1913)

Podemos desde já constatar que o periódico em causa era Republicano e Democrático já que se mostra altamente favorável ao estabelecimento da Cultual na freguesia. É importante mencionar que na época a imprensa não era imparcial como hoje, os jornais tinham um forte cunho ideológico. Existiam periódicos de todo o o tipo desde católicos a monárquicos, republicanos democráticos, evolucionistas, unionistas, carbonários, anarquistas etc. Cada corrente política tinha o seu meio de comunicação e, por vezes, existia mais de um meio de comunicação em cada corrente. Nesta notícia é importante denotar o sentimento do cumprimento de uma missão que está inerente à expansão dos livre-pensadores e das suas ideias. Notemos ainda a visão totalmente errada do periódico ao admitir que “as populações das aldeias aceitam e querem o seu cumprimento” (da Lei de Separação). A freguesia de Guetim estava longe de aceitar o estabelecimento da Cultual, a maioria da população mantinha-se ao lado do pároco como anteriormente referimos. Existia apenas uma casta, escolarizada e masculina, que pretendia levar avante o projeto republicano de Afonso Costa. 

De seguida vejamos o que menciona o “Jornal de Notícias”: 

“O senhor. Administrador do Concelho, acompanhado do seu secretário, foi ontem à freguesia de Guetim inaugurar a Cultual ali estabelecida e dar posse á comissão que a organizou. Segundo nos consta o acto foi muito concorrido pelo elemento republicano daquela freguesia” (Jornal de Notícias, 31 de Maio de 1913)

Comparativamente ao periódico “A Montanha” podemos verificar um texto não só mais pequeno mas também mais moderado, quase imparcial deste jornal. As diferenças de discurso são por demais evidentes. Estamos perante um periódico sem uma posição política declarada pelo menos no que a esta notícia diz respeito. Já na “Ordem” verificamos que a mesma notícia tem uma abordagem totalmente diferente das duas anteriores. Refere a “Ordem” o seguinte: 

“Mais uma! O Administrador do Concelho de Gaia, Dionisio Ferreira dos Santos Silva, acompanhado do Secretario da Administração Francisco Guimarães, foi no dia 30 de maio, à freguesia de Guetim dar posse à Associação Cultual que lá se organizou. Está portanto fechada a Igreja ao culto católico, pois os fieis não podem comunicar com os Cultualistas.

É a única forma de fechar Igrejas, que os sectários encontram, visto não ter dado resultado o outro sistema das comissões paroquiais se apoderarem arbitrariamente das chaves dos templos como fizeram na Foz do Douro.” (A Ordem, 6 e 7 de Junho de 1913)

Como podemos verificar o discurso do Jornal “A Ordem” é totalmente contrário ao da “Montanha”, procurando enaltecer o facto das Cultuais serem apenas e só um meio para fechar igrejas por todo o país. Após uma breve análise dos ecos da imprensa sobre Guetim, iremos abordar de forma breve a nossa teoria acerca dos livre pensadores da freguesia.

A nossa teoria acerca dos “livre-pensadores” da freguesia

Importa fazer aqui um parêntesis relativamente ao grupo livre-pensador da freguesia. Cremos piamente que personagens como Francisco da Rocha Pinto, Francisco Pereira Ramos, António Pereira Maia, Eduardo Alves da Silva ou Inácio Pereira de Sá, tinham por objetivo maior afastar o padre Martins e não eliminar o catolicismo romano da freguesia. Aliás, grande parte destes personagens é católico praticante, sendo o único ateu assumido Francisco Pereira Ramos. Estamos perante uma questão pessoal (de animosidade para com o Padre Martins) e não perante uma profunda convicção anti-religiosa (ateia) de grande parte destas personagens. A cultual foi, assim, um meio para afastar o Padre Martins da freguesia e não uma manifestação de algum tipo de firmeza ideológica.

A “diáspora” para a Capela da Quinta Amarela

Entregues as chaves da Igreja aos cultualistas era necessário não deixar morrer o culto católico romano na freguesia. O padre Martins começou imediatamente a pensar numa alternativa à Igreja Paroquial tendo surgido a capela da Quinta Amarela como a primeira opção, porém existia o entrave da mesma pertencer a um Democrático, amigo de Francisco Pereira Ramos. Alguns paroquianos partidários da fação do padre Martins procuraram este último para solucionarem o problema. Entre os paroquianos destacamos os seguintes nomes: Joaquim José de Sá, José da Cunha Barros, João Manuel da Cunha Pires, Joaquim de Oliveira Benfeito, José Gonçalves da Silva (o Peixe) e António da Costa Ramos. Será com este núcleo-duro que o padre Martins irá esboçar o plano para transferir a sede da Igreja Católica na freguesia para a Quinta Amarela. 

O interior da Capela da Quinta Amarela.
Nossa Senhora da Conceição a patrona da Capela.


Esta quinta, situada na fronteira entre Grijó e Guetim estava arrendada ao “Fernandinho da Panêca” sendo que a dona da referida quinta era da Dona Joaquina da Panêca e de sua filha, Dona Ermelinda, mulher do falecido médico Dr. António Ramos. A primeira tentativa foi infrutífera. O supracitado grupo foi falar com o Fernandinho da Panêca mas este recusou-se a sub-alugar a capela, alegando o vandalismo por parte das crianças e ainda a probabilidade do Governo tomar posse da capela caso esta fosse cedida para o culto católico. 

O interior da Capela da Quinta Amarela.

A Sacristia da Capela da Quinta Amarela.


O grupo não desanimou apesar da resposta negativa. O padre Martins escreveu ao ex-pároco da freguesia, padre António André de Lima, para que este fosse junto do senhor Alexandre Brandão (da fábrica de conservas Brandão Gomes) de forma a que este último pudesse interceder junto do Fernandinho da Panêca. Alexandre Brandão recebeu da melhor forma o grupo no qual se incluíam o pároco António André de Lima e José da Cunha Barros e escreveu uma carta dirigida ao Fernandinho da Panênca, ficando incumbido de a entregar o já mencionado José da Cunha Barros. Ao ler a carta o Panêco mudou de ideias e mostrou-se disponível para ceder a capela desde que esta cedência não viesse trazer complicações jurídicas. No dia seguinte, o padre Martins foi com o Fernandinho ao Porto consultar um advogado. Este afirmou que não existiria qualquer implicação jurídica em ceder a capela ao culto católico já que esta era uma propriedade privada que não pertencia à Igreja. A propósito deste episódio refere o padre Martins: 

“Chegou a nossa hora e eu descrevi a situação e condições da capela e o Fernandinho fez as perguntas que entendeu serem-lhe precisas para a sua orientação e defesa no…futuro, e o erudito advogado disse-nos, consultando o Decreto da Separação e confrontando alguns artigos, que a capela podia ser adaptada para culto público, pois que a mesma era pública sem deixar de ser particular.

O Fernandinho mostrou-se satisfeito com a resposta e disse ao José da Cunha que podia ir lá buscar as chaves da capela quando quisesse, e nessa ocasião, combinaram a renda da mesma.” (SILVA, 1915, p.215) 

José da Cunha Barros foi um dos líderes do movimento que conseguiu alugar a Capela.


Finalmente, no dia 4, o José da Cunha e o José Peixe foram ver a capela e trouxeram as chaves, no dia 7 de Junho de 1913 mudadas as fechaduras das portas da capela e, finalmente, no dia 8 as zeladoras iniciaram a limpeza da mesma. No mesmo dia 8 foi celebrada a primeira missa na Capela da Quinta Amarela. Segundo o Padre Martins: 


“Acudiu lá muito povo, e na prática, que continuei sempre a fazer à estação da missa, pedi que se conduzissem bem e ordeiramente. A fé católica é a chave com que se entra aqui, quem a não possuir ou que não esteja disposto a abraça-la, não venha cá.” (SILVA, 1915, p.216)


Quinta Nossa Senhora da Conceição o nome atual da Quinta Amarela.
...continua...

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