A Igreja é da Cultual!
O livro “Proezas do Jacobinismo” escrito pelo então pároco de Guetim, Manuel Martins da Silva, é uma fonte preciosa no sentido de compreender todo o processo de passagem da Igreja Paroquial de Guetim dos partidários do padre Martins para os cultualistas. É neste livro que se encontram os principais momentos de toda a tensão vivida na nossa freguesia durante a I República, sendo que um dos momentos mais marcantes é a tentativa do então Regedor, Francisco Pereira Ramos, tentar criar uma comissão de culto (cultual) para gerir a Igreja Paroquial.
A este propósito, no livro “Proezas do Jacobinismo” está transcrito o edital de Francisco Pereira Ramos:
“(…) Convido as Confrarias desta freguesia, a que sem falta compareçam hoje em minha casa, pelas 2 horas da tarde a fim de se formar a Comissão Cultual conforme determina a Lei de Separação e que se a Igreja vier a fechar por não se formar a Comissão a culpa será dos católicos desta freguesia em não se conformar com a lei que pouco é.
Guetim, 31 de Dezembro de 1911. O regedor Francisco Pereira Ramos” (SILVA, Manuel, 1915, p. 172).
No dia 28 de Maio de 1913, o pároco Manuel Martins da Silva recebe a intimação do Administrador do Concelho, Dionísio dos Santos Silva para entregar as chaves da Igreja à referida comissão cultual que foi entretanto formada. O documento refere o seguinte:
“Estando legalmente organizada uma corporação cultual nesta freguesia, ser-lhe-ão entregues os bens móveis paroquiais na próxima Sexta-Feira, 30, ato a que irei assistir, partindo no comboio que sai das Devesas às 9:15. Rogo a V. Exa. que se digne a fazer parte da entrega dos bens de que está depositário.
Gaia, 28 de Maio de 1913, o Administrador Dionísio F. dos Santos Silva” (SILVA, Manuel, 1915, p. 185).
A chegada do Administrador foi encarada com grande expectativa, quer pelos católicos quer pelos opositores do padre Martins. Dionísio Santos Silva chegou a Guetim pelas 13 da tarde e logo exigiu que a entrada na Igreja fosse vedada à multidão para impedir tumultos. Na Igreja entraram o Padre Manuel Martins da Silva representando os católicos, dois oficiais da administração do concelho, Francisco Pereira Ramos (nesta época já ex-Regedor e presidente da Cultual), Joaquim Pinto de Sousa Neves (atual Regedor), Inácio Pereira de Sá (secretário da Cultual), António Pereira Maia, conhecido como Fôna (tesoureiro da Comissão da Cultual), José de Oliveira Rocha, conhecido como o “Gabeto” representando a Junta de Freguesia e o pároco José da Cruz (padre cultualista).
Conforme atesta Maria de Brito Moura (MOURA, Maria, 2010 p. 413), não podemos ignorar que o grande objetivo do radicalismo livre-pensador seria, em última análise, fechar o maior número de templos católicos possíveis, pelo que o caso de Guetim não foi único. O facto das populações não formarem associações cultuais era um dos argumentos mais utilizados pelas autoridades para encerrar Igrejas. Procurava-se incentivar o abandono dos templos por parte dos párocos católicos entregando a gestão dos mesmos a párocos pensionistas do Estado (cultualistas). Todo este processo de encerramento e apropriação de Igrejas só podia ser levado a cabo em freguesias cuja força anticlerical fosse forte. Figuras como Francisco Pereira Ramos, Francisco da Rocha Pinto, Eduardo Alves da Silva, António Pereira Maia ou Inácio Pereira de Sá corporizavam, na nossa freguesia, o núcleo mais escolarizado e instruído. Serão estes os principais impulsionadores da República e, paralelamente, aqueles que farão os possíveis para afastarem o Padre Manuel Martins da Silva da freguesia.
A expulsão do padre Martins da Igreja de Guetim apenas é consumada porque este rejeitava liminarmente a Cultual não conferindo a esta instituição qualquer legitimidade no que toca à gestão do culto. Conforme o mesmo pároco refere:
“Eu continuo a ser o Pároco da freguesia, embora injustamente privado da minha Igreja, para cuja reparação, conservação e adorno tanto trabalhei, e me sacrifiquei, e se os novos católicos quisessem que eu continuasse a paroquiar a freguesia e exercer o culto na Igreja, não formavam a Cultual, que sabiam não poder aceitar como soldado disciplinado, na frase feliz, proferida pelo senhor Ramos, e já expressa no Edital de 6 de Janeiro no qual dizia que eu não aceitaria a Cultual para obedecer aos meus superiores e mesmo porque é um absurdo, um contra-senso, uma aberração que indivíduos alheios até agora aos preceitos divinos e eclesiásticos se apoderem de um templo católico que sempre desprezaram e até odiavam.” (SIlVA, Manuel, 1915, p. 189).
A última missa Católica
Eis o relato do Padre Manuel Martins da Silva acerca da última missa “católica” na Igreja de Guetim antes da entrega desta à Associação cultual da freguesia:
“Fiz a conclusão do mez de Maria no sabbado, e desafoguei a imensa magoa que me torturava a alma com lagrimas e suspiros junto d’Aquella Imagem da Senhora de Lourdes que foi a creadora da piedade do fervor e do zelo que lavram na freguezia; mas como é nossa querida Mãe e possue um coração tão terno que não pode ouvir queixumes nem ver derramar lagrimas, senti-me bem depressa aliviado e mais forte para a luta e as queixas cessaram e as lagrimas estancaram. (SILVA, Manuel 1915, p.197).
O pároco Manuel Martins da Silva continua a sua emocionada despedida nos seguintes termos:
“Despedi-me por ultimo da Igreja a que me prendem laços estreitíssimos e por cuja conservação e adorno tanto trabalhei; e agradeci muito penhorado a todos que deram as suas esmolas para o seu asseio, manutenção e esplendor do culto, bem como o zelo, cuidados e canseiras das pessoas que tinham a seu cargo, e sem remuneração alguma, a veneração e limpeza dos altares.
Deus vos recompensará e espero que, se vós me virdes em necessidade, me dareis um bocado de pão para matar a fome, distribuireis com aquele que também já distribuiu as suas migalhas com alguns dos parentes ou dos filhos! O meu paradeiro, a minha residência provisória, é ainda na casa do grande benemérito senhor. João Guetim, meu queridíssimo amigo.
No fim da missa tive um ofertório, ás 10 horas diz um casamento e ás 2 horas da tarde baptisei uma neta do cidadão Eduardo. Pelo que disse e declarei á missa parece que defini claramente a minha atitude e até esperava que os homens viessem no fim da missa tomar conta do…que lhe não pertencia.” (SILVA, Manuel, 1915, p. 199).
A entrega das chaves da Igreja Paroquial foi feita oficialmente dia 1 de Junho de 1913 ao então presidente da Cultual Francisco Pereira Ramos. Foram entregues 3 chaves da Igreja, duas chaves da sacristia e duas chaves do cemitério. Foram ainda entregues a Francisco Pereira Ramos as chaves dos gavetões das diversas confrarias pelos respetivos mesários.
O que aconteceu depois à Igreja de Guetim? Quando foram os católicos para a capela da Quinta Amarela? Como decorreu todo o processo? É o que lhe contaremos a seguir!
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| Foto da capela da Quinta Amarela em 1913. |

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