Nota: Qualquer reprodução deste texto na sua totalidade ou em parte deverá conter a respectiva citação do blogue "Guetim Sempre".
Rio de Janeiro. Meados do século XIX. O Brasil era um país novo, acabado de tornar-se independente, no ano de 1822. Era um território em desenvolvimento que necessitava de mão-de-obra estrangeira como referimos na primeira parte desta biografia. Cimentada a independência, o Brasil da segunda metade do século XIX, conhece um desenvolvimento económico sem precedentes que gera espaço a um florescimento da atividade comercial e à compra e venda de produtos. Apesar deste crescimento económico não podemos ignorar que o Brasil continuava muito dependente das importações, pelo que os movimentos alfandegários na cidade eram extremamente ativos.
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| Pormenor da Rua do Hospício na qual habitava João Francisco da Silva Guetim no Brasil. |
Os números não enganam. No século XIX, quatro quintos dos portugueses registados nos movimentos de emigração optaram pelo Brasil como destino, João Francisco Guetim faz parte destas estatísticas, tendo partido ainda muito jovem e procurando no outro lado do Atlântico melhores condições de vida, à imagem de inúmeros portugueses. (KLEIN, Herbert, “Análise Social”, 1993, p. 237)
Embora sem certezas, cremos que João Guetim teve uma carreira ligada ao comércio e à transação de produtos durante a sua estadia no Brasil. Essa atividade, num país em expansão e que necessitava de comprar quase tudo o que consumia, era sem dúvida lucrativa, permitindo ao nosso biografado coletar uma respeitável fortuna. A maioria dos portugueses que embarcavam para o Brasil optavam por exercer a atividade comercial que, nas primeiras décadas da segunda metade do século XIX, foi dominada em grande parte por estes. (CRUZ, Maria Antonieta, “Revista de História”, p.9)
O topónimo “Guetim”
Com o passar dos anos o sucesso da sua carreira profissional era reconhecido por todos, assim como o seu espírito solidário para com os mais desvalidos e necessitados. Um incómodo surgiu contudo na década de 70 do século XIX para o nosso biografado. O Rio de Janeiro começava a tornar-se uma cidade cosmopolita e, portanto, um lugar com todo o dinamismo típicos das grandes cidades europeias mas também com todos os vícios destas. A marginalidade e a criminalidade eram uma realidade que crescia de forma exponencial.
João Francisco da Silva tinha precisamente o mesmo nome de um conhecido criminoso do Rio de Janeiro. Este facto levava a que fosse diversas vezes incomodado pelas autoridades. De forma a evitar mais problemas no futuro João Francisco da Silva, em homenagem à terra que o viu nascer e crescer, acrescenta o topónimo “Guetim” ao seu nome, passando daí para a frente a ser conhecido como João Francisco daSilva Guetim. Para proceder ao acrescento do nome João Francisco da Silva, numa das ocasiões que veio a Portugal trouxe consigo um recorte do jornal “Comércio do Rio de Janeiro”, para fazer prova às autoridades do incómodo e para que estas o autorizassem a fazer o acrescento do nome. Esse recorte chegou intacto até aos nossos dias, o qual pode ser visto abaixo.
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| O livro no qual está colada a notícia do "Comércio do Rio de Janeiro". |
| Pormenor da notícia do "Comércio do Rio de Janeiro". |
Um cidadão influente em terras brasileiras
Já aqui nos referimos ao facto de João Francisco da Silva Guetim ter conseguido reunir uma grande fortuna no Brasil, porém não a guardou só para si e é acima de tudo por este lado benemérito e filantrópico que foi relembrado e será, estamos certos disso, eternizado pelas gerações futuras. A sua preocupação para com os desvalidos e necessitados era constante, assim como prova a curta notícia do jornal “O Cruzeiro do Rio de Janeiro” de 23 de Junho de 1878 a qual refere o seguinte:
“O Exmo. Senhor João Francisco da Silva Guetim, muito digno membro do conselho da Caixa, entregou hoje, na tesouraria desta instituição, a quantia de 30$, para serem distribuídos aos infelizes a quem socorremos. É um donativo expontâneo que faz este cavalheiro por ocasião da sua partida para a Europa; prósperos ventos o conduzam à terra natal e feliz regresso a fim de ser útil aos desvalidos” (in: Cruzeiro do Rio de Janeiro 23 de Junho de 1878).
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| A notícia do "Cruzeiro do Rio de Janeiro". |
Desenganem-se todos aqueles que julgam que João Francisco Guetim esqueceu o seu país e a sua terra natal enquanto estava no Brasil. O livro “Proezas do Jacobinismo” de Manuel Martins da Silva dá-nos a prova de que o benemérito guetinense jamais esqueceu as suas raízes e não se fez rogado em ajudar as suas gentes. O Padre Martins refere o seguinte:
“Senhor de uma fortuna que honradamente adquiriu com o seu aturado trabalho na grande República do Brasil, procurou sempre engrandecer e melhorar a sua terra antal com obras de elevado alcance social, como a construção da atual Igreja Paroquial juntamente com o também patriota já falecido, José Francisco Pereira (…)” (SILVA, Manuel Martins, Proezas do Jacobinismo, 1915, p. 75).
| João Francisco da Silva Guetim foi o maior benemérito da construção da Igreja Paroquial de Guetim. |
“Um dia perguntaram-lhe no Rio de Janeiro de onde era natural, e um seu patrício que estava presente respondeu que era de uma freguesia que nem Igreja tinha, ou que tinha uma “sé de Carvalho”. Assim chamavam à torre que era formada por estacas de carvalho onde se suspendiam dois sinos pequenos. Na primeira visita que fez aos seus queridos pais resolveu edificar uma torre e comprou um sino grande de bom metal. Depois ajudou muito os promotores da construção da nossa Igreja com avantajadas esmolas e outros serviços.” (IDEM).
“Não havia casa para o funcionamento da escola. Escrevem ao Guetim, que então estava no Brasi e pedem-lhe proteção. Este manda construir um bom salão para a escola” (IDEM).
Um ilustre Maçom!
O seu trabalho em prol dos desvalidos em terras brasileiras assim como o seu crescente interesse pelo desenvolvimento cultural fizeram de João Francisco da Silva Guetim membro da maçonaria brasileira, isto poderá explicar a renuncia à religião católica deste ilustre guetinense. Apesar de maçom nunca rejeitou auxiliar alguns membros da fação conservadora de Guetim durante a I República. O seu caráter pelo que considerava justo estava sempre à frente das ideologias e até mesmo das convicções políticas e religiosas.
Qual o papel de João Francisco da Silva Guetim na maçonaria brasileira? Não sabemos. É imensamente complicado tentar construir o percurso no Brasil a partir de Portugal já que o acesso às fontes fica imensamente condicionado.
| O reconhecimento enquanto Maçom. |
O regresso
O ano de 1878, no mês de Julho, marca o regresso de João Francisco da Silva Guetim a Portugal. Não temos porém certeza que este tenha sido o regresso definitivo, é bem provável que o nosso biografado estivesse um tempo entre Portugal e o Brasil até se voltar a fixar definitivamente no nosso país. Não temos documentos que atestem este facto mas os relatos dos seus descendentes apontam nesse sentido.
A partida do Rio de Janeiro tinha como destino Lisboa e João Guetim não viajava sozinho. Levava consigo três crianças. Quem são estas crianças? Não sabemos e muito dificilmente conseguiremos descobrir. Foi-nos dito, através da da sua bisneta, que João Francisco da Silva Guetim apesar de ter permanecido toda a vida solteiro, teve dois filhos, um deles de uma mulher espanhola já quando estava em Portugal chamado Cristóvão. Outro dos filhos de João Francisco da Silva Guetim é Manuel da Silva Guetim. De Manuel pouco ou nada se sabe, já de Cristóvão…será certamente um nome a ter em conta para uma biografia porque, também este, foi um ilustre guetinense.
Que fez João Francisco da Silva Guetim quando regressou a Portugal? Qual o seu papel no desenvolvimento do concelho de Espinho? Estas e outras questões serão respondidas na terceira parte da biografia deste grande guetinense!
Agradecimentos
Todo este trabalho apenas foi possível com a preciosa ajuda da dona Margarida Guetim que, devido à sua imensa amabilidade, se mostrou inteiramente disponível para nos ceder o material que possuía do seu bisavô. Não poderíamos deixar de prestar o agradecimento público pela sua extrema disponibilidade.
Bibliografia e fontes da segunda parte da biografia:
Fontes
- Jornal "O Cruzeiro do Rio de Janeiro";
- Silva, Manuel Martins, "Proezas do Jacobinismo", Porto, 1915;
- Jornal "O Comércio do Rio de Janeiro.
Bibliografia
- Rodrigues, Albertino Amaro de Sousa, "Santo Estevão de Guetim a Paróquia", Anta, 1987;
- Rodrigues, Albertino Amaro de Sousa, "Santo Estevão de Guetim a Freguesia", Anta, 1995;
- Brandão, Francisco, "Anais da História de Espinho (985 - 1926), Porto, 1991;
- Gaio, Carlos Morais, "A Génese de Espinho", Casa das Letras, 1999;
- Klein, Herbert, "A Integração social e económica dos imigrantes portugueses no Brasil nos finais do século XIX e inícios do século XX, (in: Análise Social, vol. XXVIII), 1993, pp.235 - 265;
- Cruz, Maria Antonieta, "Arguras dos Emigrantes Portugueses no Brasil" (in: Revista de História, vol. VII), 1986-87.



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