O fecho da Igreja Paroquial, como verificamos, desagradou de sobremaneira à população Católica Romana de Guetim. Ana Rodrigues Mana escreveu sobre o episódio que se estendeu ao longo de 4 anos. O poema que se segue, da sua autoria, foi-nos gentilmente cedido pela dona Maria Sousa, o qual transcrevemos.
Feitoria…
Freguesia de Guetim
Oh! Gente malfadada
Que há alguns dias
Tinhas a igreja fechada
Os causadores disto tudo
São uns grandes figurões
Estragaram a freguesia
Com as suas vingações
Fecharam a nossa Igreja
Para do Padre se vingar
Alguns que bem receberam
Assim quiseram pagar
Tomaram posse da Igreja
Homens de grande juízo
Um conto de reis não chega
Para pagar o prejuízo
E onde se irá buscar
Dinheiro para tal fazer?...
Por isso ao povo
É cego quem não quer ver
Fecharam a Igreja ao povo
Malvados sem coração
Quem causou tanto desgosto
Já não pode ter perdão
Tiraram-nos a Igreja
A que tanto nós zelávamos
Fecharam os santos humildes
A quem tanto adorava-mos
Fecharam o Santo Estevão
O coração de Jesus
Nossa Senhora da Guia
Milagrosa Santa Cruz
Fecharam o São José
O Mártir S. Sebastião
O milagroso Santo António
A Imaculada Conceição
Fecharam o S. Cristovão
O lindo Menino Jesus
O milagroso S. Vicente
E os crucifixos na Cruz
Já não há na nossa Igreja
Jesus sacramentado
Quem nos causou tal dano
Não pode ser perdoado
O próprio cemitério
Os malvados desprezaram
Onde estão nossas famílias
Pais e mães que nos criaram
Isto parece uma montanha
Que nos mete tarragido
Até os próprios defuntos
Tal desgraça ter sofrido
Abri as portas da igreja
Para quem quiser entrar
Para fazer a oração
Para Deus vos perdoar
O povo da freguesia
Que tanto se tem cansado
Com trabalho e dinheiro
Para ver tudo estragado
A Igreja está estragada
E a nossa residência
Os lindos aparamentos
O senhor nos dê paciência
Malvados dai a Igreja
A quem tem direito a ela
Com a vossa covardia
Vamos à missa à Capela
Abri as portas da Igreja
Findai com a tirania
Dai o que não vos pertence
Ao povo da freguesia
Ó Deus que estais no céu
Vossa imagem em todo o mundo
Socorrei nossa Igreja
Não quero ir mais ao fundo
Mais nada quero dizer
Estou em lágrimas banhada
Tudo isto é paixão
Pela Igreja estar fechada
Findei pedindo desculpa
Ó gente escandalizada
Quem escreveu esta história
Foi uma triste entravada
Rita Domingues Mana
Fontes consultadas:
- Atas da Junta de Freguesia de Guetim (1913 - 1918), Junta de Freguesia de Guetim;
- SILVA, Manuel Martins da, Proezas do Jacobinismo - História Duma Cultual, 1915, Tipografia São José, Porto.
Bibliografia local:
- RODRIGUES, Albertino Amaro de Sousa, Santo Estevão de Guetim a Paróquia, Vol. I, 1987, Ed. do autor;
- RODRIGUES, Albertino Amardo de Sousa, Santo Estevão de Guetim a Freguesia, Vol. II,1995, Ed. do autor.
Bibliografia temática:
- CARVALHO, José, Católicos nas vésperas da I República, 2009, Editora Civilização;
- CATROGA, Fernando, "O Laicismo e a Questão Religiosa em Portugal (1865 - 1911)". In: Análise Social, vol. XXIV (100), 1988.
- MATOS, Luís Salgado de, A Separação do Estado e da Igreja, 2011, D. Quixote;
- MOURA, Maria Lúcia de Brito, A "Guerra Religiosa" na I República, 2010, Universidade Católica Portuguesa;
- NETO, Vitor, O Estado e a Sociedade EM Portugal (1832 - 1911), 1998, Imprensa Nacional Casa da Moeda;
- PINTO, Sérgio, Separação Religiosa como Modernidade, 2011, Universidade Católica Portuguesa;
- ROCHA, André, Católicos e Política a partir da Imprensa Católica Bracarense, 2012, Universidade do Minho.
Agradecimentos:
- Agradecemos à Junta de Freguesia de Guetim a disponibilização das atas da Junta para consulta;
- Agradecemos ainda à dona Maria Sousa a sua amabilidade na disponibilização do poema "Feitoria" da autoria de Ana Domingues Mana.
Sem comentários:
Enviar um comentário