Nota: Qualquer reprodução deste texto na sua totalidade ou em parte deverá conter a respectiva citação do blogue "Guetim Sempre".
Falar da história de Guetim sem abordar o trabalho benemérito de João Francisco da Silva Guetim em prol da nossa freguesia é impossível. Albertino Amaro de Sousa Rodrigues classifica este guetinenses como um “incansável lutador pelo engrandecimento material e moral da terra que o viu nascer e onde se fez homem, em particular, tornou-se pelo seu altruísmo e interesse manifestado em benefício de todos aqueles que carecidos de auxílio buscaram a sua proteção, merecedor da maior gratidão e respeito pelas gentes com quem conviveu.” (RODRIGUES, Santo Estevão de Guetim - A Paróquia, 1985, p.127)
Não poderíamos estar mais de acordo com estas palavras do historiador guetinense que, ao longo das suas obras, traçou rasgos biográficos de insofismável valor acerca do nosso biografado. Nesta última parte não podemos deixar de recomendar a leitura dos seus dois livros dedicados à nossa freguesia.
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| Os dois volumes poderão ser encontrados na Biblioteca do Grupo Cultural de Guetim na Junta de Freguesia. |
Após este pequeno parêntesis regressemos ao nosso biografado que, depois do seu regresso do Brasil, tomou parte ativa de várias associações não só em Guetim mas também em Espinho, local onde fixou residência após o regresso a Portugal.
Os Cargos políticos
Entre os anos de 1887 e 1889 João Francisco da Silva Guetim desempenhou o cargo de vogal nas Junta de Paróquia de Guetim, liderada então pelo pároco José Alves dos Santos. No ano que abandonou o cargo de vogal em Guetim, faz parte da primeira vereação da Câmara Municipal de Espinho, corria o mês de Setembro. A comissão era presidida pelo Dr. António Augusto de Castro Soares. O seu dinamismo político e o seu caráter inconformista foram requisitos-chave para a escolha dos cargos que ocupou recair sobre a sua pessoa. Não só pela enorme fortuna que possuía mas, acima de tudo, pelo seu caráter impoluto foi sempre tido em grande consideração pelos seus pares.
A sala para a escola de Guetim
A escola em Guetim foi oficialmente conseguida decorria o ano de 1903 pelo então pároco Francisco Seabra. O Padre Manuel Martins, que inicia a sua atividade em Guetim no ano de 1906, no seu livro “Proezas do Jacobinismo” refere o seguinte a este propósito: “Pouco antes de eu ser nomeado pároco desta freguesia, o então Abade, há pouco falecido (Francisco Marques da Silva Seabra) conseguia a criação de uma escola oficial para a freguesia. (…) Não havia porém casa para o funcionamento da escola. Escrevem ao Guetim, que então estava no Brasil e pedem-lhe proteção. Manda construir um bom salão para a escola. Prometem pagar-lhe renda, mas como era rico…e deixam a casa depois que o já ex-regedor arranjou uma apropriada para arrendar, e onde ainda hoje se conserva a escola mista”. (SILVA, Manuel, Proezas do Jacobinismo, 1915, p. 75).
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| João Francisco da Silva Guetim |
Fundador dos Bombeiros Voluntários de Espinho
A ação benemérita de João Francisco da Silva Guetim não termina em Guetim. Este foi também uma figura central no desenvolvimento de Espinho sendo um dos sócios-fundadores dos Bombeiros Voluntários em 1895. Note-se ainda o valor de 50$00 legado em testamento a esta associação que fizeram com que fosse elevado a sócio honorário. Manteve-se com o cargo de tesoureiro dos Bombeiros Voluntários até 1916, dois anos antes de falecer.
Fundador do Centro Democrático de Espinho
A 4 de Abril de 1911, poucos dias antes da polémica Lei de Separação das Igrejas e do Estado, surgia em Espinho o primeiro centro político de um partido. Falamos do Centro Democrático de Espinho, o maior partido da República que tinha em Afonso Costa a principal referência. Nos Anais de Espinho é transmitida informação relevante acerca deste Centro, do qual João Francisco da Silva Guetim foi fundador, a qual passamos a transcrever.
“Em reunião bastante concorrida assentou-se na nomeação de uma comissão que trata com fervoroso e dedicado esforço da organização do Centro Republicano de Espinho. Esta comissão é composta pelos seguintes cidadãos: Alexandre Berredo, Alberto Loureiro, Alberto Milheiro, Alfredo de Berredo, João de Aragão, João Nunes de Almeida, J. Correia Marques, Manuel Casal Ribeiro, Júlio Bastos Mourão e Ramiro Mourão.” (BRANDÃO, Francisco, Anais de Espinho, 1991, p.188 - citando a “Gazeta de Espinho”).
Aquando da sua morte, em 1918, o Centro Democrático de Espinho prestou a sua homenagem a este seu membro conforme vem descrito no periódico “Gazeta de Espinho” da seguinte forma: “O Centro Democrático conservou a sua bandeira a meia-haste durante três dias em sinal de luto pelo seu sócio-fundador senhor João Francisco da Silva Guetim” (Gazeta de Espinho, n.888, 17 de Março de 1918)
A proteção ao Padre Martins da Silva
Quem conhece a situação política vivida em Portugal no ano de 1911 poderá achar estranho que um membro do Centro Democrático desse proteção a um pároco cedendo a este a sua casa. Colocando sempre o ideal de justiça acima das convicções políticas João Francisco da Silva Guetim, uma vez mais, demonstrou a sua face humana.
Quando Manuel Martins da Silva foi expulso da Residência Paroquial de Guetim, fruto da Lei de Separação do Estado e das Igrejas de 1911, João Francisco da Silva Guetim disponibilizou a sua casa para o pároco mesmo depois de todas as pressões exercidas pelos republicanos da terra. Vejamos o que escreve o Padre Manuel Martins da Silva acerca deste episódio.
“Organizaram uma comissão para tratar do assunto (da residência para o pároco) o que fez com que eu me reanimasse e confortasse. Esta comissão foi bater à porta do ilustre filho e insigne benfeitor João Francisco da Silva Guetim, residente em Espinho, e pediu-lhe a cedência de uma das suas casas que aqui possui para a habitação provisória do nosso pároco que foi ontem intimado a despejar a residência em cinco dias! “Estais servidos” respondeu logo esse bondoso homem que, pequeno no corpo e dotado de uma grande alma, não se cansa em fazer o bem e socorrer os necessitados indistintamente”. (SILVA, Manuel, Proezas do Jacobinismo, 1915, p. 74)
“Quando souberam que me cedera a casa, foram pedir-lhe a Espinho que retrocedesse e não consentisse que eu viesse para a sua casa. “Eu sou português, dei a minha palavra está dada não me arrependerei. Não foi ele que pediu a casa, foi a freguesia e eu quero fazer a vontade do povo que vejo que quer lá o rapaz! Que mal tem ele feito? E se está culpado a República ainda não o castigou?! Vai, e vai para a minha casa porque quem lá manda ainda sou eu! Não preciso dele para mim mas, se o povo o quer, ele não me aborrece”” (SILVA, Manuel, Proezas do Jacobinismo, 1915, p. 76)
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| Pároco Manuel Martins da Silva |
A morte
No dia 17 de Março de 1918 João Francisco da Silva Guetim aparecia na primeira página do periódico “Gazeta de Espinho” que anunciava a sua morte da seguinte forma:
“A Gazeta de Espinho no triste cumprimento de um dever, presta a mais sentida homenagem ao amigo, ao caráter, à franqueza, à lealdade que em vida se chamou João Francisco da Silva Guetim; bem como apresenta em tão funéreo desenlace os seus cumprimentos à enlutada família, mormente ao seu filho e nosso prezado amigo sr. Cristóvão Guetim”. (Gazeta de Espinho, n.888, 17 de Março de 1918)
“O seu funeral realizou-se na passada Sexta-feira indo ser sepultado a Guetim, terra da sua naturalidade. No precito encorporam-se todas as pessoas em destaque e representantes de todas as agremiações, prestando assim a derradeira homenagem ao saudoso extinto”. (IDEM)
Próxima parte (IV): João Francisco Guetim Post-mortem e anexos.



Adorei! Obrigada.
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