segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Retábulo da Capela da Igreja Velha descodificado (parte IV)

Concluindo o Estudo

Diferente. Se tivéssemos de classificar o retábulo numa palavra esta seria a escolhida. Diferente essencialmente pelo desconhecimento bíblico do autor relativamente aos temas a retratar. Parece-nos inegável que o pintor tinha conhecimentos no que toca aos momentos retratados, contudo demonstra uma clara falta de raciocínio lógico, dado que mistura temas diversos num único retábulo. Procuramos mas não encontramos qualquer obra na qual o Sagrado Coração de Maria se encontre representado juntamente com Cristo crucificado. É de facto representação única, por isso mesmo denota algum arcaísmo não na caracterização simbólica das passagens da Bíblia mas sim na organização conceptual do retábulo. 

O arcaísmo do desenho denota que o pintor era pouco reconhecido na zona e também muito pouco experimentado. Há a hipótese de esta ter sido a única peça por si pintada dado que não encontramos nas redondezas pinturas com estilo de linha e pinceladas semelhantes. O mau estado de conservação nesta fase, sugere que as tintas usadas eram superficiais não tendo qualquer tipo de mistura e camadas de tons. 

Um aspecto relevante é o simbolismo. Esta é uma representação imensamente simbólica e com características valiosas desse ponto de vista. Os temas vegetalistas, as representações dos instrumentos da Paixão, o coração de Maria ou as chamadas representando o Inferno denotam um profundo conhecimento do simbolismo de passagens da Bíblia e da cultura greco-cristã que não devem ser ignorados.

É uma peça com pouco valor material e, cremos, não justifica a recuperação. Aliás, a mesma parece-nos já muito difícil para não dizer impossível. Seria contudo recomendável que o retábulo fosse protegido das intempéries e que não tivesse qualquer tipo de arranjo floral por perto como acontece nos dias de hoje. Estimamos que, dado o mau estado da madeira, serão precisos poucos anos para que este esteja totalmente consumido e se parta. Para a "posteridade" fica o artigo do "Guetim Sempre" com a certeza que este estudo foi gratificante para nós e, estamos certos, para o leitor.

Agradecimentos:
David Aguiar (Mestre em Património Cultural pela Universidade do Minho)
Interior da Capela
FIM

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