terça-feira, 22 de março de 2016

Santo Estevão - Padroeiro de Guetim

Em Guetim há um padroeiro tão antigo mas tão antigo que não conseguimos recuar o suficiente para encontrar a origem da sua devoção na freguesia. Cremos que a mesma se situa em inícios do século XVI, data para a qual apontamos a construção do primeiro complexo da antiga igreja. As fontes são quase inexistentes, contudo, estamos certos que este é um culto antigo na freguesia, o qual perdurou ininterruptamente até aos nossos dias, ao contrário de padroeiros de outras freguesias que se iam alterando conforme as "modas" da época.

O Santo

Somente três ramos da doutrina cristã reconhecem Santo Estevão como santo: Católica, Ortodoxa e Anglicana. O culto a Santo Estevão começou, de forma mais intensa, a partir do século XV não sendo contudo de descurar a existência de devoção nos séculos anteriores. 

O mártir

Santo Estevão é considerado o primeiro mártir cristão. Fazia parte da primeira comunidade cristã de Jerusalém sendo um dos 70 discípulos incumbidos de espalhar a palavra de Cristo. Foi acusado de ter uma atitude de desrespeito e falta de subserviência perante a Torah e, por isso, foi levado ao Sumo-sacerdote. Segundo nos é relatado nos Atos dos Apóstolos, este encheu-se do Espírito Santo e, abrindo a mão, fez um longo discurso da história do cristianismo, enchendo de raiva todos os que o ouviam. 

Os que o ouviam gritavam pela sua morte e assim sucedeu, morrendo apedrejado e implorando o perdão dos seus perseguidores. 

O Culto

As relíquias de Santo Estevão encontram-se na Basílica Romana de São Lourenço, contudo outras igrejas italianas reivindicam possuir relíquias do Santo. O culto a Santo Estevão está, aliás, bastante presente em Itália com inúmeras Igrejas a adoptarem-no como padroeiro. No que toca a França existem cerca de dez catedrais que o têm como patrono. No que toca ao nosso país a devoção estende-se um pouco por todo o território nacional. 
Icnografia

É frequentemente representado numa pose serena, geralmente com o manto vermelho, branco ou alaranjado. As pedras no regaço são geralmente representadas, em alternativa há imagens nas quais se verifica a cena do apedrejamento. A partir do século XV as representações passaram a incluir um livro numa das mãos.

Representações
Estátua de Santo Estevão por Ghiberti

Santo Estevão pregando - Mosaico na Igreja de São Lourenço (Roma)
O apedrejamento de Santo Estevão por Giotto








































quarta-feira, 9 de março de 2016

Igreja Paroquial de Guetim - A arquitectura (Analisando a fachada)



Introdução

Guetim. Passa das duas horas da manhã. Encontramo-nos no Largo da Igreja, bem em frente ao cruzeiro. Num ápice admiramos o edifício majestoso que se ergue bem na nossa frente. Seria possível não o fazer? Não, claro que não! Nem para aqueles que por cá vivem já há várias dezenas de anos. A Igreja está ali, bem na frente! Está em todo o lado, em qualquer lugar da freguesia. Do Rameiro, da Igreja, da Picadela, até da A41! A imagem do edifício quase nos persegue. Com ele partilhamos o nosso dia-a-dia, a nossa existência!
Já imaginou quantas histórias este edifício não encerra? E a Igreja que existia antes desta? Consegue imaginar? Pense quantos dos seus antepassados estarão certamente enterrados por debaixo do edifício. Quantos episódios históricos ali se presenciaram, quanta história ali se fez! Queríamos mostrar mais do que aquilo que vamos mostrar, contudo a limitação da documentação impede-nos de lhe dar a conhecer mais que isto. Esta é a Igreja Paroquial de Guetim!

O edifício

O início da construção data de 1872, o edifício que hoje conhecemos vem substituir a "Sé de carvalho" que aí existia. Pouco sabemos da Igreja antiga, não existem quaisquer registos fotográficos e os documentos são escassos. A nós chegaram-nos escassos relatos do edifício que, num artigo posterior, iremos incluir. A primeira missa decorreu em 1886, porém as obras só ficaram concluídas na última década do século XIX.

Contornado a vermelho: O corpo da Igreja e do cemitério


As obras

1972 - Obras de requalificação que não alteraram o aspeto geral do templo. A capela-mor sofreu um alargamento com dois complexos ligados a esta para a função de sacristias. O altar teve um pequeno avanço para que de todos os ângulos da Igreja fosse possível visualizar a exposição do Santíssimo Sacramento.

Fachada principal

É composta por dois corpos, o primeiro dos quais triangular com azulejaria que data das obras de requalificação em 1972, de pouco valor simbólico ao contrário da antiga azulejaria que continha elementos simbólicos fortes. Note-se ainda duas imagens: À esquerda do padroeiro principal, Santo Estevão e à direita de Nossa Senhora da Guia, padroeira secundária. No meio destes está um vitral com a típica cruz latina a branco encontrando-se por cima da porta principal do complexo. 

No segundo corpo podemos observar o frontão triangular com um tímpano, no qual se encontra um relógio ao centro, colocado ao que tudo indica na década de 70. Junta à base do frontão triangular, de cada um dos lados, podemos encontrar um fogaréu de formato pinacular. 

Note-se ainda a torre sineira que, à semelhança da Igreja está subdividida em dois corpos. O primeiro retangular incorporando o sino e um segundo corpo piramidal, o qual é encimado pela cruz. Note-se ainda que esta torre possui três sinos. Ao lado da base da pirâmide encontram-se dois fogaréus que ladeiam a parte superior.  

Legenda da arquitetura da fachada


Próximo artigo: A arte



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Retábulo da Capela da Igreja Velha descodificado (parte IV)

Concluindo o Estudo

Diferente. Se tivéssemos de classificar o retábulo numa palavra esta seria a escolhida. Diferente essencialmente pelo desconhecimento bíblico do autor relativamente aos temas a retratar. Parece-nos inegável que o pintor tinha conhecimentos no que toca aos momentos retratados, contudo demonstra uma clara falta de raciocínio lógico, dado que mistura temas diversos num único retábulo. Procuramos mas não encontramos qualquer obra na qual o Sagrado Coração de Maria se encontre representado juntamente com Cristo crucificado. É de facto representação única, por isso mesmo denota algum arcaísmo não na caracterização simbólica das passagens da Bíblia mas sim na organização conceptual do retábulo. 

O arcaísmo do desenho denota que o pintor era pouco reconhecido na zona e também muito pouco experimentado. Há a hipótese de esta ter sido a única peça por si pintada dado que não encontramos nas redondezas pinturas com estilo de linha e pinceladas semelhantes. O mau estado de conservação nesta fase, sugere que as tintas usadas eram superficiais não tendo qualquer tipo de mistura e camadas de tons. 

Um aspecto relevante é o simbolismo. Esta é uma representação imensamente simbólica e com características valiosas desse ponto de vista. Os temas vegetalistas, as representações dos instrumentos da Paixão, o coração de Maria ou as chamadas representando o Inferno denotam um profundo conhecimento do simbolismo de passagens da Bíblia e da cultura greco-cristã que não devem ser ignorados.

É uma peça com pouco valor material e, cremos, não justifica a recuperação. Aliás, a mesma parece-nos já muito difícil para não dizer impossível. Seria contudo recomendável que o retábulo fosse protegido das intempéries e que não tivesse qualquer tipo de arranjo floral por perto como acontece nos dias de hoje. Estimamos que, dado o mau estado da madeira, serão precisos poucos anos para que este esteja totalmente consumido e se parta. Para a "posteridade" fica o artigo do "Guetim Sempre" com a certeza que este estudo foi gratificante para nós e, estamos certos, para o leitor.

Agradecimentos:
David Aguiar (Mestre em Património Cultural pela Universidade do Minho)
Interior da Capela
FIM

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Retábulo da Capela da Igreja Velha descodificado (parte III)

Deverá antes ler a PARTE I e a PARTE II


1. Cristo Crucificado;
2. Escadas, lança, martelo, cálice e chicote;
3. Imaculado Coração de Maria;
4. Maria Madalena? São João?;
5. Não identificado;
6. Chamas, mãos;
7. Não identificado

Na última parte do nosso trabalho descodificamos alguns dos componentes do retábulo como a imagem de Cristo Crucificado e os instrumentos da Paixão, nesta terceira parte continuaremos o processo identificativo dos vários componentes do Retábulo da Capela da Igreja Velha.


3 - O Imaculado Coração de Maria
Sagrado Coração de Maria

O Imaculado Coração de Maria é aqui representado com a virgem vestindo um manto vermelho com um véu azul. Já especificamos na primeira parte deste trabalho toda a simbologia desta figura pelo que agora iremos centrar-nos em aspetos mais técnicos.

Atente-se em primeiro lugar para a forma tosca como foi concebido o rosto, não sendo a linha do mesmo oval mas sim uma quase perfeita circunferência. Encontramos aqui mais uma prova evidente da forma algo arcaica com que o artista desenvolveu a obra. A seta verde aponta ao coração saído do peito, e as setas vermelhas as mãos. Podemos identificar pormenores interessantes como a forma básica das mesmas. Esta é talvez a figura mais bem conservada das três que compõem o retábulo e, por isso mesmo, podemos também reparar de forma clara o cabelo (castanho - ver seta lilás) e os olhos amendoados assim como as pestanas exageradamente acima da linha dos olhos.

Há uma representação oval (assinalada com uma oval vermelha) por baixo da figura da Virgem que não conseguimos identificar, contudo podemos observar uma pequena figura vestida de vermelho e azul e alguns motivos vegetalistas a verde e vermelho.

4. Certamente João, porém poderá ser também Maria Madalena 


João, Maria Madalena ou outro
 Esta foi a figura que mais tempo demorou a descodificar e, verdade seja dita, será difícil sabermos de quem se trata ao certo. O mais provável é ser o Apóstolo João pelo simples motivo que é a figura mais vezes representada nas figuras alusivas à crucificação. Não podemos porém descartar a hipótese Maria Madalena que também vem em variadas representações ou até mesmo algum santo da devoção do encomendador. 

Porquê que a hipótese mais provável é João?

Este é inúmeras vezes representado por um manto vermelho e, se atentarmos bem, conseguimos identificar restos de tinta vermelha nomeadamente do lado esquerdo da imagem. Note-se ainda que o cabelo (negro) está relativamente bem conservado (circunferência 2). Não cremos que este cabelo, de tamanho curto, possa ser o de uma mulher. Não temos porém certeza das linhas exatas do traçado pelo que será sempre imprudente afastar outras hipóteses. A circunferência 1 traça aquilo que seria o rosto. Mais uma vez note-se a forma redonda e não oval do mesmo, à semelhança rosto de Maria. 

5 e 6 - Chamas



Identificamos aquilo que cremos serem chamas pintadas a vermelho. Cremos que as mesmas representam o Inferno que é literalmente "calcado" pelas três imagens representadas acima. Note-se que conseguimos identificar de forma clara um rosto (dentro do círculo) que cremos seja uma das almas que ardem no fogo infernal. As setas representam algumas figuras que são pouco percetíveis e de difícil identificação. Anjos? Demónios? Mais almas penantes? Todas as hipóteses são válidas. 

8 - A inscrição 

A inscrição ocupa o rodapé do retábulo. Conseguimos identificar poucas letras. Ainda não estudamos a fundo o mesmo pelo que, pelo menos para já, será prematuro avançar com qualquer hipótese. Note-se que do lado direito da imagem podemos ver a data de criação do retábulo, 1866. 

...continua...

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O Retábulo da Capela da Igreja Velha descodificado (parte II)

Deverá ler antes a parte I clicando AQUI

Explicitação dos pontos identificados:


1. Cristo Crucificado;
2. Escadas, lança, martelo, cálice e chicote;
3. Imaculado Coração de Maria;
4. Maria Madalena? São João?;
5. Não identificado;
6. Chamas, mãos;
7. Não identificado
8. Inscrição

1 - Cristo crucificado:

Vista geral


Pormenores identificados: 
1. O rosto



Podemos notar alguns pormenores no rosto. As setas azuis apontam para os cabelos de Cristo. Note-se a tentativa algo tosca do artista desenhar um cabelo comprido no qual podemos identificar caracóis. A seta vermelha representa o olho esquerdo de Cristo que se encontra cerrado ou semi-cerrado. As setas amarelas apontam para o fundo da pintura em tom ocre.

2. Braços

Braço direito
Braço esquerdo
No braço direito notem-se as linhas vermelhas, representativas do sangue. É identificável o prego pregado na mão. Não pode passar em claro a desproporção da mão relativamente ao braço sendo esta exageradamente maior. Já do braço esquerdo a imagem está imensamente apagada, no entanto conseguimos identificar dentro do círculo a cor vermelha representativa do sangue. As duas linhas diagonais representam aquilo que consideramos ser a linha do braço esquerdo de Cristo no retábulo.

3. Tronco


No tronco podemos identificar o mamilo de Cristo a vermelho (assinalado na imagem com um círculo). Junto à linha esquerda verificamos uma mancha vermelha que, cremos, seja parte do dorso de Cristo. A silhueta está certamente pintada de vermelho e róseo, tal qual o braço que identificamos acima. Note-se mais uma vez a desproporção da imagem. O tronco é reduzido dado a tamanho da cabeça. 

4. Pernas
Esta é a parte mais deteriorada da imagem de Cristo. Podemos identificar poucas coisas. Note-se no círculo a cor rósea a representar as pernas deste.

2. Os símbolos da Paixão (Escadas, lança, martelo, cálice e chicote):

Vista Geral



Os símbolos da Paixão de Cristo estão assinalados com círculos e com linhas vermelhas. O número 1 corresponde às imagens de dois cálices. O número dois corresponde a imagens de martelos e chicotes. O número 3 são os escadórios representados na pintura. Já no ponto 4 podemos ver uma lança.

Os instrumentos da Paixão. Obra presente na Igreja de Saint-Pierre de Collonges-la-Rouge
Na imagem acima podemos identificar os três dos quatro instrumentos presentes no retábulo: Os martelos, os escadórios e a lança. A representação no retábulo de alguns dos instrumentos da Paixão denota que o autor do mesmo não seria alguém desprovido de conhecimento bíblico. Sabemos contudo que na época os católicos, embora com menos possibilidades para tal, eram mais instruídos que os atuais devido, em parte, ao maior fervor religioso.


1. Cálice

Cálice 1

Cálice 2
O Cálice Sagrado ou "Santo Gral" é o recipiente usado por Cristo na última ceia para tomar o vinho. Alguns ritos religiosos afirmam que José de Arimateia usou o cálice para colher algum sangue de Cristo durante a sua crucificação.

2. Martelos e chicotes

As setas apontam os três martelos identificados no retábulo.




Possível ponta de chicote.

O martelo simboliza o sofrimento. Foi o martelo que pregou Jesus à Cruz. Este é um objeto fundamental em toda a Paixão, em particular no momento da crucificação. Já o chicote vai de encontro ao mesmo significado. Foi o instrumento usado aquando das 39 chibatadas dos Judeus antes da caminhada para o Calvário.

3. O(s) Escadório(s)

Escadório 1
Escadório 2
A escada foi usada para a deposição de Cristo da Cruz. José de Arimateia e Nicodemos foram quem retiraram o corpo morto de Jesus da Cruz. Esta tem também o significado de elevação ao céu e consequente afastamento das trevas. 

4. A lança

A lança representada no retábulo
A Santa Lança foi o objeto que deu o último golpe em Cristo crucificado, tendo do corpo do mesmo saído sangue algumas gotas de água, simbolizando o sangue a humanidade e a água a divindade. Esta é a última das 5 chagas de Jesus. 

...Continua...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Retábulo da Capela da Igreja Velha descodificado (parte I)

Nota: O objetivo deste artigo é discorrer somente acerca do retábulo e não da Capela em si.

 Introdução

A arte conta-nos histórias. Uma vez lidas as pinturas, independentemente do seu valor material, transmitem-nos informações riquíssimas sobre a vivência quotidiana de uma determinada comunidade. O retábulo da Igreja Velha não é exceção. Apesar do seu péssimo estado e da sua pobreza material e técnica consegue dar-nos pistas não só sobre o culto religioso praticado mas também acerca da riqueza do encomendador e até mesmo da região. 

O trabalho não está, e talvez nunca esteja, totalmente concluído. O retábulo tem certamente muito mais para nos contar, contudo sentimos que por esta altura podemos avançar com um estudo minimamente credível acerca da composição do mesmo. Prepare-se caro leitor, a pintura vai começar a falar!

Localização geográfica


O Retábulo objeto de estudo situa-se em Portugal, na fronteira do distrito de Aveiro com o distrito do Porto. O concelho é Espinho, a freguesia Guetim (Anta-Guetim após a Reforma Administrativa de 2011). A capela dista 2,17 km do Mosteiro de Grijó em linha reta e cerca de 2,30 km em trajeto rodoviário. Já da  Igreja Paroquial de Guetim dista 1,15 km em linha reta, 1,35 km em caminho pedonal ficado a cerca de 2 km em trajeto rodoviário.
Vista Google Earth
Vista Google Earth pormenorizada
A capela vista de Grijó
O interior da Capela da Igreja Velha


Contexto

Após algumas leituras sobre o local tivemos conhecimento que existia um retábulo no interior da Capela da Igreja Velha em muito mau estado. Apesar da deterioração ainda não foi tarde para o estudar, contudo, amanhã certamente será, dado o seu acelerado estado de decomposição. Conseguimos aceder ao interior da Capela para fotografar a obra de forma a termos uma melhor perceção do conjunto e de alguns pormenores que só após horas de visualização saltaram à vista. 

Encontramos a Capela  exposta a imensa humidade no Inverno e à elevada temperatura no Verão, devido ao facto da construção ter várias aberturas por onde circula o ar e todo o tipo invasores naturais que deterioram o retábulo e o imóvel em si. O estado de degradação do mesmo é quase total estando a tinta descascada em cerca de 80% da área da pintura, o que dificultou imenso o trabalho de identificação das personagens. 

As flores usadas para enfeitar a capela são geralmente colocadas mesmo em frente ao retábulo, contudo o recipiente está descaído para o lado esquerdo. Isto fez com que a parte central e direita do retábulo ficasse mais protegida que a esquerda, já que as flores serviram durante vários anos de protetor natural à conservação desta parte da peça. 

O retábulo data de 1866 ou 1868, contudo acreditamos que o mesmo não foi encomendado para a Capela, tendo sido posteriormente colocado no local. Nada se sabe acerca de quem encomendou a peça, tampouco quem foi o seu autor. É uma pintura pobre, de um artista tecnicamente fraco e com pouco valor material. O desenho é algo infantilizado e com uma falta de noções artísticas claras, por isso mesmo estamos perante uma peça barata, de um encomendador pobre.
Podíamos apelar ao valor material da peça e para a necessidade da sua conservação mas não o vamos fazer, pois acreditamos que o seu valor monetário é reduzido. Não podemos contudo esquecer o seu valor identitário e histórico para a freguesia que a possui. Desse ponto de vista a recuperação (sendo possível) seria salutar.


Identificando o retábulo

1. Cristo crucificado;
2. Escadas, lança, martelo, cálice, chicote e lanças;
3. Imaculado Coração de Maria;
4. Maria Madalena?/São João?;
5. Não identificado;
6. Chamas, mãos;
7. Não identificado;
8. Inscrição.



 Obras semelhantes

Escolhemos estas três mas, na verdade, existem inúmeras obras que se assemelham ao retábulo objeto de estudo. No fundo os temas da paixão são recorrentes e repetidamente reproduzidos por diversos artistas.

Obra 1 - Sagrado coração de Maria de Leopold Kupelwieser

Crucificação por Simon Vounet

Obra 3 - Crucificção por El Greco


Obra 1 - Sagrado Coração de Maria por Leopold Kupelwieser

"(...) et tuam ipsius animam pertransiet gladius ut revelentur ex multis cordibus cogitationes (...)" Lucas, 2:35.



A devoção do Sagrado Coração de Maria é bastante antiga, tendo as suas origens na Idade Média, sendo veiculada através de teólogos como São Bernardino de Siena ou São Francisco de Sales. Curiosamente, a devoção manteve-se quase adormecida durante grande parte do período da época moderna até ressurgir em finais do século XVII, por terras gaulesas, através do presbítero francês João Eudes. O seu livro "Coeur Admirable" publicado em 1681 rapidamente alastra o culto por todo o sul da Europa tendo chegado a Portugal em inícios do século XVIII. 

Na obra um podemos ver o coração resplandecente de Maria significando o eterno amor que a "mãe do céu" (segundo os católicos romanos) tem para dar a todas as almas. A luminosidade das chamas que o cercam significa também a presença viva de Maria entre os cristãos romanos, sendo exemplificativo do fogo do Espírito Santo. Há ainda uma coroa de espinhos que rodeia o coração representando aqueles que são indiferentes ao seu amor, ferindo o coração de Maria podendo ter a espada a mesma interpretação. O manto vermelho representa o fogo vivo do Espírito Santo e o véu azul o céu e a paz eterna. Note-se ainda o gesto da mão esquerda, convidando os Homens a juntarem-se ao seu culto. O fundo da pintura é dourado, resplandecente tendo por objetivo demonstrar o brilho e a grandiosidade da Virgem. 


Obra 2 - Cristo Crucificado por Carl Bloch

"(...) dicunt omnes crucifigatur ait illis praeses quid enim mali fecit at illi magis clamabant dicentis crucifigatur (...)" Mateus, 27:23.

Esta representação é uma das mais recorrentes. Ao centro a cruz com Crisco crucificado estando na sua direita a mãe, Maria, e na esquerda o apóstolo João e Maria Madalena. Apesar de simplista no que à simbologia diz respeito será de notar o céu negro anunciando o tempo de trevas e personificando a dor de Deus perante os Homens. Para além dos pregos não encontramos outros símbolos da paixão de Cristo como escadas, martelos ou chicotes. A cruz romana e a disposição dos personagens são muito semelhantes à distribuição dos personagens no retábulo da Capela da Igreja Velha. 

Obra 3 - Crucificação por El Greco

"(...) cum vidisset ergo lesus matrem et discipulum stantem quem diligebat dicit matri suae mulier ecce filius tuus" João, 19:26.

Mais uma vez note-se a cruz ao centro da imagem como é usual. A figura de Cristo, crucificado, é ladeada por dois anjos que amparam o sangue que cai. À semelhança do retábulo da Igreja Velha note-se a imagem de Maria do lado direto da cruz e João do lado esquerdo. Maria Madalena aparece de joelhos, assim como os anjos ampara o sangue que cai, uma imagem aliás muito recorrente nos artistas italianos como é o caso de Greco.

*Colaboração de David Aguiar mestre em Património Cultural pela Universidade do Minho

...Continua...

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Grandes Guetinenses: Manuel Martins (terceira parte)

Como verificamos nas partes anteriores que compõem esta biografia, Manuel Alves Dias Martins foi um lutador incansável para dotar a sua terra de melhoramentos diversos dedicando-se de corpo e alma ao bem da comunidade. Também na altura da morte este guetinense revelou o enorme amor pela sua terra legando a fonte da Gruta da Lomba à paróquia conforme está descrito no seu testamento:

"Lega à comissão do culto da referida freguesia de Guetim o seu prédio constituído por lavradio e mato, onde existe a "Gruta da Lomba" da dita freguesia de Guetim, descrito na respectiva conservatória do Registo Predial do Porto sob o número oito mil quatrocentos e um do livro B e do inscrito na referida matriz sob o artigo número cento e sete com o valor de trinta escudos e oitenta centavos, como consta da mencionada certidão, com a obrigação de dar água ao pároco, à família dele, testador, e aos doentes da dita freguesia de Guetim. Deve-se mandar levantar o seu mausuléu na mesma freguesia e ainda mandar rezar anualmente no dia de aniversário do seu falecimento dele testador uma missa por sua alma (...)"  - Testamento Manuel Alves Dias Martins (pags. 2/3).


Muito devemos a Manuel Alves Dias Martins, pois de outra forma jamais poderíamos usufruir da água da famosa "Gruta da Lomba" um local mágico, rodeado de natureza e, seguramente, um dos sítios mais aprazíveis de Guetim.

Infelizmente a ausência de fontes é grande pelo que não podemos alongar esta biografia conforme o expectável. Esperemos que com o tempo mais fontes importantes acerca da vida desde ilustre guetinense sejam desenterradas. O estudo da vida de Manuel Alves Dias Martins é também o estudo do quotidiano de uma freguesia que, sendo pequena, se fez grande pelo trabalho árduo das suas gentes.